domingo, 24 de abril de 2022

Os pioneiros da Psicologia Analítica no Brasil

         Como as ideias de Jung aportaram da Europa para o Brasil? Quem foram os responsáveis por essa nova empreitada? E qual era o contexto da época? São essas as perguntas que Arnaldo Alves da Motta, psicólogo, tenta responder de maneira bastante cuidadosa no livro Raízes da Psicologia Analítica: pessoas e contexto, da série Histórias da Psicologia no Brasil, CFP.

        Conhecer a situação e o processo histórico é importante para fortalecer a identidade profissional, permitindo a criticidade que imuniza de erros cometidos, e qualifica ações positivas engendradas no passado, que uma vez contextualizadas podem ser aprimoradas. 

        O perigo desta abordagem é o culto personalista, porém, uma vez alertados quanto a isso, passamos a encarar essas pessoas como indivíduos que dentro de suas limitações fatídicas, dão respostas autênticas para a sociedade, contribuindo de sua forma única para com ela. Assim é que Nise da Silveira, Pethö Sándor, e Léon Bonaventure são apontados como pioneiros na divulgação das ideias Junguianas no Brasil. Destes, Pethö Sándor e Léon Bonaventure são estrangeiros que se radicaram no Brasil, enquanto Nise é psiquiatra brasileira responsável por diversas iniciativas, como o Museu das Imagens do Inconsciente e a publicação de livros, entre ele: "Gatos, a emoção de lidar", "Terapêutica Ocupacional - teoria e prática" e "Jung, vida e Obra".

        Os três referidos profissionais possuem pensamento autônomo e diferenciado, no entanto, logo no primeiro contato se identifica os sulcos que a psicologia profunda deixaram em seu trabalho.

 

Pethö Sándor, criador da Calatonia. Foi professor do curso  de  Cinesiologia do Instituto Sedes Sapientiaeonde coordenava   grupos   de    estudo    sobre  Psicologia Analítica.    Seus     alunos    divulgam    suas   ideias atualmente   já   que  deixou  pouco  material escrito. Há  diversos  mestrados  acerca  do  método  da calatonia  e  toques  sutis, especialmente nos sítios da PUC. O curso Jung e Corpo atende a formação dessa abordagem,   além   de  possuir outras  influências de métodos corporais em sua grade.


Léon Bonaventure investiu em diversas iniciativas para a divulgação da Psicologia Analítica no   Brasil. Foi responsável pelo terceiro livro de Jung traduzido para  Português, que deslanchou a  tradução dos 18 volumes das Obras Completas de C. G. Jung, sob sua responsabilidade, de sua esposa, Jette Bonaventure, e de Mariana Ferreira da Silva. Em 1975 coordenou as comemorações para o centenário do nascimento de Jung, em São Paulo. Convidado por ele, diversos Junguianos do Instituto de Zurique vieram para o Brasil dar palestras e supervisões. Teve participação significativa nos primórdios da formação da SBPA. 


Nise da Silveira à esquerda, e C. G. Jung à direita.

 


Por que os alquimistas fazem segredo da alquimia?

        


        É quase que unânime a opinião de que a origem da alquimia se deu no mundo egípcio. Tecnologicamente o grande avanço que aquele povo teve ainda hoje intriga egiptólogos e a humanidade. Também intriga os cientistas devido a complexidade religiosa que lá existiu, sendo inclusive a origem da concepção monoteísta de deus por um curto espaço de tempo. O Deus dos deuses fora aglutinado na imagem do Sol no reinado de Akenaton e sua esposa Nefertite.

        Foi no Egito que os alquimistas começaram a fazer segredo de seus conhecimentos. Somente quem os detinha eram os sacerdotes, e se estes quebrassem seus votos de silêncio eram punidos com o ostracismo, ou mesmo com a morte pelos de sua própria casta sacerdotal. Assim como no mundo de hoje, muitas vezes o grande faraó era na verdade dominado por aqueles que realmente tinham o poder, naquele contexto era a casta religiosa que o detinha. O faraó para saber de alguns segredos tinha que passar por vários rituais.

        Os sacerdotes entronizavam suas concepções alquímicas do universo, e sua contraparte, a astrologia,  na sua religião. E, na verdade, podemos pensar se de fato havia separação entre estas e a religião egípcia? Suas mega construções atestam a filosofia de que o que está em cima é igual ao que está embaixo. Por meio dessas construções se buscava trazer para a terra as forças celestiais e levá-las da volta para o céu, pois acreditava-se na magia dessas construções para beneficiar o Egito. 

    A tábua de Esmeralda escrita por sacerdotes do deus Thoth traz a ideia da unidade do universo entre o que está em cima e o que está em baixo, além de toda a ideia de que os astros e elementos da natureza se unem para criar o mundo, inclusive o homem e a mulher divinizados e encarnados neste mundo. Também há a ideia na tábua esmeraldina de que todas as ciências e tecnologias que o ser humano poderia criar viriam das inumeráveis adaptações contidas sinteticamente nos princípios thothianos presentes na tábua.

        A alquimia nunca esteve separada da astrologia no Egito e nem em nenhuma época e lugar. Os astros eram forças ou deuses planetários sempre presentes. Os sacerdotes certamente eram astrólogos que adoravam diversos deuses, numa amálgama de crenças em constante gestalt para a formação de um todo coerente. Podemos ver essas concepções convivendo juntas na Índia de hoje, e não é difícil imaginar tal convivência no Egito Antigo, ou seja, diversas personificações de deuses junto com forças planetárias ou astrológicos. Dessa forma podemos entender que por um curto período tenha sido possível a maturação da ideia de que a principal divindade no Egito tenha sido o sol, astro que daria a luz a todas as outras divindades, já que isto estava implícito no sistema astrológico, ou seja, uma consciência monoteísta estava em vias de desenvolvimento por meio da imagem mandálica do sistema solar.

        Nessa imagem mandálica o sol é o astro central, ele é a origem da luz. Além disso, ele é o astro regente, sendo todos os outros satélites e planetas visíveis somente na medida em que podem refletir a luz em torno do qual giram. Desnecessário dizer que o conhecimento do nosso sistema solar já era presente entre os povos antigos, e que também existia uma matemática que permitia a realização de cálculos bastante precisos acerca dos movimentos dos corpos celestiais. Os calendários deles também eram bastante precisos.

        Akenaton foi um faraó que trouxe por um curto período de tempo esse tipo de ideia de um astro ou Deus central. Akenaton significa aquele que reflete o sol, ou aquele que serve ou manifesta Aton. Na alquimia o Sol estava relacionado ao ouro, objeto sempre presente nos cultos de adoração do Egito por representar simbolicamente a luz imortal na terra. Muito provavelmente Akenaton, sua esposa, e mesmo seu filho que o substituiu, Tutankamon, foram mortos pelas forças conservadoras sacerdotais de Tebas.

        Por volta do ano 300 a.C uma coisa inédita na história aconteceu: um verdadeiro golpe na casta sacerdotal Egípcia. Um conquistador bem generoso no que diz respeito ao conhecimento surgiu. Chamado Alexandre, o Grande, ele deu início ao Egito-Helênico que durou até o ano 300 d.C. aproximadamente. Alexandre era um verdadeiro cosmopolita, que levou para suas conquistas as ideias da Grécia do amor ao conhecimento e à verdade. Foi em Alexandria que foi fundada a maior biblioteca do mundo antigo onde fora exposto para o público todo o conhecimento disponível do Egito. Aliás, a princípio esse foi o principal propósito da biblioteca, guardar os famosos textos contidos nos pilares de Hermes e outros textos do Egito. Logo a cidade passou a atrair sábios de todo o mundo conhecido, que levavam outras formas de conhecimento e sabedoria, além de disseminarem para outros lugares tudo o que estava sendo construído nessa efervescente cidade. 

        Me parece que a  humanidade em geral não gosta muito de luz. A biblioteca de Alexandria foi queimada diversas vezes por outros conquistadores até quase nada mais restar. Porém, antes de se entrar na idade das trevas a biblioteca já havia cumprido sua missão: o conhecimento antigo se espalhou, se desenvolveu em novas e melhores formas para depois ser possível o seu retorno. Mas muita coisa tem que ser resgatada, pois há de fato conhecimentos que foram perdidos.

        Já na época da Alexandria o mais famoso dos alquimistas havia novamente mostrado a tendência antiga dos egípcios de se esconder o conhecimento alquímico. O nome dele era Zózimo de Panápolis, um gnóstico oriundo das primeiras vertentes cristãs do gnosticismo. Os livros de alquimia no oriente, como na Índia ou China, são sempre muito mais claros, e no ocidente toda a coisa é velada desde o Egito, passando pelos gnósticos e chegando a muitos alquimistas da idade média, renascimento e sociedades "secretas" atuais. Os livros ressuscitados por Jung em sebos eram livros que sempre escondiam e confundiam os significados dos símbolos alquímicos, e, na verdade, este conseguiu entender muita coisa graças ao seu método de simbologia e mitologia comparada, ou seja, justamente pela sua excursão em outras culturas.  

        A proposta do segredo sempre é acompanhada de ideias religiosas e místicas que estratificam a sociedade entre aqueles que sabem daqueles que não sabem, origem das castas. Os maçons, por exemplo, que se dizem os herdeiros dos mistérios egípcios, também funcionam como sociedade secreta, fazendo segredos e mistérios. Também, como sabemos, e essa parte eles não escondem, são formados preferencialmente por pessoas que visam poder mundano e influência na sociedade.

        Como nos é passado na versão da histórica atual, onde temos um bode expiatório bem identificado, nos dizem que os alquimistas faziam tanto segredo porque a Igreja Católica os iriam perseguir. Bem, isso não explica muita coisa. No Egito não existia esse bode expiatório, com Zózimo também esta não existia enquanto poder para perseguir ninguém na Alexandria. Por que Zózimo proporia novamente o segredo depois de toda a liberdade que ele experimentou na Alexandria? Também não explica porque os alquimistas católicos são os mais claros em seus textos a respeito dos conhecimentos de sua época, enfim... também não explica essa continuidade histórica que podemos encontrar, só a título de exemplo, na maçonaria que se arvora herdeira desse conhecimento que para eles deve ser secreto por motivos intrínsecos a sua organização, e não porque se sintam ameaçados por algo que venha de fora.

        Desde Jung e Mircea Eliade, e desde a abertura maior para a tradução de livros de alquimia de outros povos de línguas diversas, que surge no mercado editorial publicações mais claras e comprometidas com o saber, que aos poucos vão revelando o que de fato é a alquimia, sem dar azo a criações místicas e meio esquizotípicas que os segredos propiciam. Essa atitude que secreta sempre foi um terreno fértil para que a imaginação humana realmente "saísse da casinha", atraindo aqueles que tem essa tendência, e levando a cada vez mais descrédito tais formas de conhecimento acerca do corpo, da alma e do espírito, do mundo e do cosmos. Os livros históricos tem sido recuperados, os símbolos descerrados, o que foi feito para despistar tem sido desmascarado e o que é de fato real fica mais claro.

        Não precisamos nem é possível esconder a luz do sol, do conhecimento e da verdade.  Se o conhecimento alquímico é velado a alguns é por causa de sua natureza simbólica que necessita de vivência, reflexão, e sabedoria interior para ser aberto. No mais, o sol é gratuito e brilha para todos bastando se ter olhos para ver.


"Não há ninguém que depois de acender uma candeia a esconda debaixo de um jarro, ou a coloque sob a cama. Ao contrário, coloca-a num lugar apropriado, de maneira que todos aqueles que entrem vejam o resplandecer da luz" (Lucas 8:16).

        


sexta-feira, 15 de abril de 2022

O que aprendi sobre o cristal Citrino?

 


        Entrei na jornada dos cristais, e estou os conhecendo da melhor maneira que podemos conhecê-los, usando-os. Depois da minha aventura pelo quartzo rosa e o meu reconhecimento "by experience" de que ele realmente traz a tona os traumas de nossa criança interior para serem desbloqueados e limpos, me empolguei com os cristais e comecei a trazê-los para minha vida. Fui em busca da pedra citrino por dois motivos: queria me conectar com meu plexo solar, e queria prosperidade em minha vida.

        A primeiro coisa que tenho a dizer é que imaginava que iria ser invadida pelo raio solar quente e vibrante, calorento, o que não me era imaginariamente nada agradável. A segunda coisa que pensei foi que o nome citrino vem de cítrico, indicando uma pedra limão meio cítrica, o que me era mais ou menos imaginariamente agradável. Mas como disse, falarei do meu relato pessoal, do que aprendi até aqui no meu contato real com a pedra... colocando ela no meu peito e eventualmente a segurando durante oração e meditação me veio intuições e sensações energéticas de que essa linda pedra na verdade tem uma luz solar doce e calmante. Sua quenturinha é reconfortante, seu sol ameno ilumina e traz beleza sem tirar o frescor e a calma da alma. Ela traz calma junto com a positividade solar. Ela não irá te incomodar com raios solares intensos de jeito nenhum, ela trará luz na sombra. É uma linda pedra. Ela brilha, mas seu brilho não a faz brilhar no seu corpo sutil de maneira intensa, só quem vê e aprecia a beleza de uma luz assim irá perceber ela irradiando em você. Ou seja, as pessoas mais calmas e que tem equilíbrio para ver, verão o reflexo dela em você. A luz não é introspectiva, mas também não é expansiva e gritante, como já disse, é uma luz solar calmante e agradável.

        Uma outra coisa que notei é que ela é doce... talvez em outras pessoas ela irá atuar de outras formas. Mas comigo ela foi associada a camomila e ao mel, por sinal, fiquei com vontade de comer um melzinho e tomar chá de camomila num dia, e depois entendi que a pedra me levou a isso. Olhem a cor dela e vejam como ela é um amarelo doce e calmante! Camomila e mel são dois elementos solares segundo os estudiosos dos símbolos. Usar essa pedra tem um potencial de nos abrir para a prosperidade como os girassóis que se voltam para o sol. Mas esses girassóis maravilhosos e positivos, de novo, estão num dia ensolarado, bonito e ameno. Fresco, agradável.

        Até o momento percebo o seu poder de expulsão do "espírito da pobreza", no sentido de que ela afasta pensamentos negativos que nos impregnam. Não é bobagem, muitos pensamentos negativos acabam levando você ao medo e a escassez. Por acreditarmos nos nossos pesadelos de pobreza, e de que nada dará certo, claro que magnetizamos isso. Quanto a isso tenho a dizer que a pedra é uma mestra, e que mal começou a me ensinar sobre.

        Sobre o meu sistema digestivo, outra propriedade referida da pedra citrino é que ela auxilia esse sistema. Confirmo essa informação pela minha experiência. Estava sofrendo com isso devido a gravidez, e mesmo sem programá-la para tanto ela atuou no meu estômago, me auxiliando nos gases que estava tendo e que me levavam a ter dor no peito. Sensação horrível, por sinal. Além de uma atuação sensorial no plexo solar nesse sentido, pois ela me levou a me conectar sensorialmente com meu plexo, depois percebi os arrotos sendo liberados e ficando em paz com o estômago, e a dor no peito cessou. Hum! interessante! Como disse, usei a pedra sem pensar nisso, e sem programá-la para tanto, mas aconteceu no mesmo dia. Mas como será que a pedra age para atuar no sistema físico? Acredito, como Alice Howell, que o símbolo é como um anzol que nos ajuda a pescar coisas que estão no inconsciente e subconsciente, embora não soubesse dessa informação antes, depois descobri que chá camomila é infalível para gases. A pedra-anzol me ajudou a pescar essa informação que se apresentou no meu campo em forma de intuição. Quando uma intuição me chega dessa forma eu somente obedeço. Por isso que digo, quem sabe para quem precisa de outra cura ela é uma pedra cítrica, para mim ela agiu mais como uma "calmotrino" ou como uma "meltrino" ;)

        O citrino tem muitas vezes uma cor fumê em sua composição, passando uma ideia de complementaridade entre a luz solar e o escuro. Pelos caminhos interiores ela vai ensinando e despertando sobre a gratuidade da luz solar para aqueles que podem, querem e merecem ver.

        Seguirei usando e conhecendo pela minha própria experiência a pedra citrino!



 



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Sobre a Alba Alquimia da Deusa Saraswati

           Ao ler sobre a Acqua Permanens na Alquimia-Ocidental-Cristã e seu papel dentro da albedo, surge-me a imagem deslumbrante da Deusa Saraswati, montada em seu veículo, o cisne branco. Muitas vezes ao utilizarmos da nossa capacidade imaginativa de comparação entre símbolos de diferentes culturas, descerramos significados sobre o Ser, que nos abrem portas para nosso próprio entendimento espiritual e material; afinal, conhecer o Ser e a sua realidade criada é conhecer a si mesmo, e vice-versa. Gratidão, então, à Deusa Saraswati por me ajudar a entender melhor a Acqua Permanens da sabedoria divina presente na alquimia.



        Saraswati está dentro de uma trindade divina de deusas hindus e seus inseparáveis consortes, simbolizando a criação, a sabedoria e o conhecimento do universo junto com Brama. Parte-se do princípio que o conhecimento é sobre a realidade divina criada como manifestação de Deus ou Braman, como chamam os hindus. Sem esse ponto de baliza, todo o conhecimento produzido será obscurecido pela ignorância e trevas, continuará no fundo, velado ao nosso entendimento. Do mesmo modo, na alquimia, a mensagem é clara: "conheça-te a ti mesmo". Significa conhecer o 'artifex' criador divino, que é retratado como a Unidade de um casal Real, Rei e Rainha do universo em constante transformação.
        Na alquimia, a sabedoria divina é representada pela Acqua Permanens, que pode ser traduzida como Água Eterna. O nome foi dado para indicar que este conhecimento é eterno e permanente, ou seja, as leis divinas não mudam. O abstrato e a unidade delas podem ser extraídos da criação, que se manifesta diante dos nossos olhos materiais de maneira multiforme.
        Diferente da pedra filosofal em que se acrescenta os elementos terrenos e fogosos coagulantes, a 'Água Eterna' resulta da união entre o elemento líquido sublimado e o ar. No processo de coniunctio desses elementos, a água sobe por meio da fé do alquimista (oração) em direção aos céus, busca a orientação e se une ao espírito que possui a verdade procurada, retorna então fecundada pelo ar para a terra, trazendo em si a sabedoria do alto.
        A água, por ser um elemento mais próximo da terra, pode umidificá-la, servindo como veículo que transporta o espírito celeste para dentro da matéria. Compreende-se assim também o mistério do batismo pela água, pois nesse sacramento ela está em sua forma de 'Acqua permanens', fecundada pelo espírito, tendo a capacidade de transformar a carne conferindo-lhe outra qualidade livre da ignorância. Depois o batismo será pelo fogo, em uma segunda fase da Obra.
        A albedo é a primeira fase na qual nos lavamos com a água limpa e verdadeira que nos livra das ignorâncias, das dúvidas sobre quem nós somos e o que devemos fazer, das obscuridades que nos levam aos erros, aos pecados, e às imperfeições. Na terapia, corresponde aos insights e esclarecimentos de si, à conscientização de tudo aquilo que está nas sombras. Nas vivências espirituais a albedo corresponde realmente às benditas iluminações e nova vida com que somos agraciados.
        O processo de albificação não se dá uma só vez na vida. Ele é cíclico. Inúmeras vezes recebemos do céu os ensinamentos divinos que buscamos. De água em água, de chuva em chuva, de orvalho em orvalho forma-se o rio. Aos poucos nos tornamos sábios e maduros, e todos os rios correm para o mar... Esses rios vão distribuindo no caminho água para todos que queiram dela beber. Bebem todos do espírito da cultura e da civilização acumulado. Há os homens e mulheres que, digamos assim, dão mais dessa água de beber pois dela têm em abundância, e são como nossos professores, orientadores e guias espirituais. Ou simplesmente são os nossos velhos antepassados, pais e mães, avôs e avós, contadores de histórias.
        Mas o que tal água mais especificamente é enquanto experiência? Qual sua qualidade alquímica? Além de poder penetrar no sólido, a água é fluida. Ela é um símbolo para algo que toma inúmeras formas com facilidade, e que tem a emoção viva que o ar puramente abstrato não possui.... como a música, como as imagens da literatura que emocionam, como o sonho acordado. Então chegamos a Saraswati para esclarecer melhor, por meio da amplificação, esse tipo de conhecimento que é a água permanente...
        Saraswati segura uma cítara em sua imagem, representando o conhecimento que nos traz a música, que se move de maneira fluida ao redor de nós como um casamento da água com o ar. Muitos mistérios divinos são transmitidos em ritos e religiões do mundo inteiro através da música, como espíritos sonoros que movem nossa alma, se animam e dançam em nosso coração no ritmo fluido de suas letras. Ela é a forma mais fecunda de conhecimento que pode existir, inundando de luz e de inspiração quem ouça essas canções. Claro que a matéria tem que estar preparada para receber a sabedoria, muitas mensagens simplesmente não são compreendidas a fundo.
        A música também pode ser inteiramente cindida do mundo do espírito, e não trazer conhecimento algum que valha a pena, somente obscuridades e mais induções ao erro. Mas as músicas rituais, as poéticas, as sagas, os hinos, os mantras hindus, enfim, toda espécie de música sacra ou que almeja amor, beleza e sabedoria elevados, é uma manifestação do tipo Saraswati; sabedoria divina descendo sobre a humanidade.
        O que encontramos muitas vezes nas músicas sacras são as histórias míticas de um povo, a história de seus espíritos mensageiros, de seus heróis civilizadores, de Deus, de sua Mãe eterna e suas inúmeras formas, dos deuses, dos casais divinos, do amor, de seus frutos etc... Temos então como identificar claramente outra manifestação dessa forma de conhecimento. A sabedoria divida é, além da música, todo o mundo da literatura, das imagens, e da arte pictórica, de todas as artes!
        O conhecimento de Saraswati nos traz a beleza do movimento vivo. Espírito aquífero que pouco a pouco se imprime na matéria do artista, do literato, e do poeta...
        Sarasvati senta-se em um cisne branco, um animal de poder que une dois reinos da natureza: os reinos da água e do ar, o que confirma a sua semelhança arquetípica com o elemento da alquimia de que estamos falando. A cor branca do cisne representa o conhecimento purificado pela albedo, a clareza mental de que esse conhecimento é divino e transcendente. Não sendo nosso, portanto, não deveríamos ter ciúme dele.
        Outro animal de Saraswati menos comum é o pavão. Com suas múltiplas cores ele representa o conhecimento da multiplicidade, mas também o conhecimento que vem através da beleza que nos encanta e seduz para ensinar algo importante. Não é curioso como muitas vezes antes da albedo os alquimistas vêem o surgimento de todas as cores, e chamam a isso de 'cauda do pavão'? O conhecimento da multiplicidade ainda é imperfeito quando não se captou totalmente a sua unidade e transcendência. No entanto, esse estado de conhecimento já anuncia a sua perfeição. Como Jung diz, podemos ficar inflacionados no contato com a sabedoria do Self e suas emoções intensas; ninguém nega a exuberância inflacionária do pavão. Essa dinâmica de imagens arquetípicas nos ensina que isso é inclusive o esperado.
        Com a albificação subsequente à cauda pavonis, temos a união de todas as cores no branco. Talvez seja por isso, por se tratar de um estado de encantamento preliminar a albedo, que dificilmente Saraswati tem como sua montaria o pavão, pois nessa fase a presença do ego ainda não permite a total compreensão de que a manifestação do conhecimento é um ato puro do criador, ou seja, ainda pode-se encontrar a vaidade e o ciúme do conhecedor, ao invés da profunda devoção que caracteriza o sábio.
        Caso queiramos ter acesso à sabedoria divina devemos mergulhar nesses rios caudalosos da humanidade, ler histórias míticas dos povos, como as da mitologia hindu que são riquíssimas, as histórias e mitos da bíblia, as parábolas alquímicas, a boa literatura, músicas e artes: são 'água da vida'. Não qualquer literatura, mas a de valor universal, que nos fala de quem nós somos realmente, a que contém sabedoria para beber e iluminar gerações, a que tem como destino certo chegar ao mar e se consagrar eterna.

A "Nova Era" como um retorno a "Eterna Era"

"Uma relação espiritualizada e anímica com a realidade material deve exercer sobre a nova geração uma atração toda especial, por ser capaz de curar a dissociação antinatural e secular da psique ocidental e, simultaneamente, de superar de dentro o materialismo".

        Esse grifo que acabei de citar é uma consideração que encontramos já no prefácio do livro de Jung chamado "Psicologia e Alquimia". Toda essa atração pelo mundo espiritual e anímico, que se constata já há muito tempo na mente coletiva de nossos jovens, tem sido nos tempos atuais abrangentemente rotulada como 'Nova Era'. Mas o que seria a Nova Era? Senão um sintoma, e também uma tentativa de cura de um tempo que foi fraturado pelos erros da filosofia materialista ocidental, especialmente os erros do iluminismo, modernismo, liberalismo e marxismo ou materialismo-histórico, que nasceram e se encadearam um ao outro no Ocidente europeu recentemente, mas que não deveriam ser confundidos com o vasto ocidente em si como tem sido feito. Hoje, tais erros se espalham como vírus também no oriente, destruindo ou ameaçando destruir a alma daquelas culturas.
        Lá no oriente, políticos, tiranos e intelectuais de gabinete, contaminados pelo materialismo que nasceu no continente europeu, tentam, mas não conseguem abolir a natureza do homem eterno, mesmo com o uso da força paramilitar e de forte doutrinação centralizada pelo Estado, caso que acontece na ditadura Chinesa, por exemplo. Poderíamos retornar e curar esse tempo fraturado através do espelhamento no oriente antigo? Essa foi uma pergunta que Jung levantou e tentou responder, já que em essência é possível encontrar naquelas paragens o caminho integral que o ocidente antigo trilhava antes de sua fratura, como na Índia onde ainda não existe a divisão entre mundo material e mundo metafísico. Sophia ainda está íntegra e acessível para todos.
        Tal forma de espelhamento no oriente poderia nos servir como ponto de comparação e apoio, mas... respondendo a pergunta que Jung nos colocou, o que podemos aprender com os maus frutos destes tempos atuais é que a recusa a curar a nós mesmos por vias diretas, além de não resolver a nossa cisão, tem feito mal a outros biomas culturais distantes, o chamado "oriente". E isso se dá a curtíssimo prazo, por meio da disseminação da dissociação materialista e neurotizante no mundo que avança com sua globalização selvagem. O islã também reage com cada vez mais fundamentalismo e poder bélico frente a ameaça ocidentalizante, como numa super reação e defesa, para a infelicidade deles próprios e nossa.
        Logo surgem os mitos populares irrefreáveis e ctônicos em vários pontos do globo, sobre a vinda de um Messias ou Avatar que nos reconduziria pelo caminho correto de nossa alma que foi extraviado. Isso não é nada mais que a lei da compensação psíquica aplicada a nível coletivo, a tentativa de cura do inconsciente da humanidade que está em profundo desequilíbrio. O que pode curar a alma ocidental, de fato e sem medeio, é a aceitação que advém de um retorno e reconhecimento das próprias raízes ocidentais, mesmo que encontremos o oriente no ocidente - e vice-versa - ao revirar nossas raízes. É somente olhando para dentro de si, e isso vale a nível cultural também, que podemos curar cisões, honrar antepassados. Cultivar e cuidar da Árvore da Vida que une terra e céu, olhar para os nossos pais e mães espirituais sem culpas, com a reconciliação que nos fará inteiros e fortes novamente. Integrar a religião e espiritualidade desvalorizada e reprimida ao conhecimento básico e superior, e principalmente à vida prática. 
        Os valores espirituais e a vivência do sagrado são fundamentais para a vida, coisas das quais o materialismo simplesmente tenta nos alijar. Além disso, nossos antepassados (e isso tem acontecido especialmente com toda essa multidão imensa de cristãos que existem, mas não só eles) não podem ser simplesmente abolidos por um ato de vontade ou por meio de uma escrita histórica vomitada, negativa ou excludente, e anticristã... pois tudo isso está gravado no fundo de nossa alma e não pode ser simplesmente apagado sem que a alma coletiva adoeça. Além do mais, o reprimido sempre retorna. Não tentaram aniquilar e extinguir os judeus e o judaísmo a pouco tempo? O que acontece com eles hoje? Pois é, o genocídio cultural e espiritual, que se avizinha do genocídio de fato, nunca irá vencer, pois o reprimido sempre retorna. A sociedade evolui e se transforma pela relação a amor, e não pela aniquilação e repressão espiritual de povos e seu espírito.
        A alma coletiva sofre com a falta de alimento espiritual que cura, e assim vai atrás da própria destruição. Sofre com o saudosismo que os jovens têm de algo que não viveram, mas que suas almas pressentem e buscam... mesmo que errando o alvo por falta de pistas, mirando em ETs, que mais parecem com a descrição de demônios que se tem na Idade Média e na religião hindu milenar, e outras desordens esquizoides e narcisistas que no fundo significam apenas desenraizamento da terra por total estranhamento de si. Nos tornaremos mais vazios, mais depressivos e mais desfigurados em nossa própria face sem a restauração do Antrophos. Faremos mal ao outro achando que estamos fazendo o bem, como tem acontecido no nosso contato com os povos orientais e outros povos.
        Cristãos, católicos, gnósticos, pagãos, índios, ou pagãos e índios cristianizados, de antes da fratura, formam uma multidão que vagueia no inconsciente coletivo esperando reconhecimento e integração. Embora seja óbvio, é bom lembrar que não existem quaisquer desses citados que tenham chegado sequer perto de serem materialistas em nosso passado. Eles olhavam pro sol, para a terra e para o seu clã, assim como todos os tipos de cristãos não contaminados pelo materialismo ou modernismo, e sentiam a totalidade de sua vida em união com o espírito. Isso é o normal no ser humano, e a vida era bem melhor. Sequer podemos imaginar como era essa vida, já que a história que o ser humano médio teve acesso na escola é contada justamente por pontos de vistas enviesados, extremamente cindido em vários aspectos; além de focar apenas os momentos de tensão na política, guerras e conflitos, esquecendo de todo o resto.
        A "Nova Era", por tanto, não é nada mais que uma tentativa neurótica, por parte do ser humano integral que existe em nós, de reconstrução da "Eterna Era" perdida. A neurose se dá, pois a tentativa de cura está acontecendo por meios enviesados, sem o chão e os tijolos de maior parte dos nossos antepassados. Em paralelo e alheio a tudo isso, o povo (o chão da pirâmide, fora da elite intelectual e política) interage e tenta construir a paz, a cultura e o religare diariamente, e são ignorados se não servem aos propósitos dessas filosofias, que buscam gerar conflitos no seio da sociedade, talvez justamente porque lhes falte a luz do espírito que iria interromper o processo autodestrutivo. Há uma tática nova realizada por eles que é a de usar religiões tradicionais para seus fins, porém, a releitura que é feita nesse resgate de religiões orais, por exemplo, é utilitarista. Veja-se o caso das religiões afros, que tem sido escritas pela primeira vez já com a fratura que contaminou o Ocidente, por meio do materialismo, ateísmo, utilitarismos políticos, que nada tem a ver epistemológica e espiritualmente com aquelas religiões tradicionais. Muita coisa está sendo adulterada. Resulta assim que esse "resgate" não é verdadeiro, mas já vem contaminado com a fratura e contaminação das filosofias neurotizantes que ameaçam o Oriente também. É a ironia das ironias, pois se fala muito atualmente contra a colonização do passado, mas na prática o que há é uma neocolonização, mais destrutiva em termos espirituais, pois como eram culturas orais, sem registro, os primeiros registros estão sendo feitos agora com o viés Ocidental pós-fratura, e inclusive, de origem europeia. Nada contra Europeus, mas de fato nem tudo que nasceu de filosofia por lá foi bom.
        A redescoberta de nossa alma pode ser auxiliada, mas não será realizada pelos povos que ainda não sucumbiram aos erros filosóficos do materialismo antirreligioso ou ante espírito dos novos colonizadores inconscientes, pois essa tarefa cabe a nós continuarmos de onde paramos. Mercurius nem pode fazer um tertium entre culturas tão diferentes, se falta a parte mais importante que é a que adviria de nós mesmos. É tentando fazer exatamente isso sem sabermos de nossa falta, que passamos nossa doença dessacralizante para os outros. Quantas coisas perdemos com o veneno materialista essa geração nem pode imaginar... quantas bonitas moradas, castelos e reinos encantados para gerações se abrigarem em sua sombra estão sendo impedidos de serem construídos neste exato momento? São milhares de anos de sabedoria sufocados e transfigurados em calúnias apenas. Revirando o monturo do passado muitos tesouros serão encontrados, mas principalmente se conseguirmos um acesso a eles por meios diretos, pelo restabelecimento de pontes com a nossa própria alma dita ocidental.
        A nuvem escura do materialismo se espalha do Ocidente ao Oriente, falta a luz do espírito, o que nos mostra que não existe caminho fácil, nem atalhos. Ao não nos curarmos nos tornamos impossíveis e hipócritas, não podemos amar o outro como nos ensina o Cristo, que por sinal nasceu no Oriente e fez sua trajetória até o Ocidente como o Sol sempre faz. O sol engolido pela noite, retorna no outro dia, e une os extremos do céu em sua trajetória há incontáveis eons, pois no fundo não existe diferença essencial entre o homem oriental e ocidental. Aliás, não existe diferença essencial no ser humano, somos em essência os mesmos. O Sol é a luz da consciência, a sabedoria do espírito. Ele pode parecer que morreu, mas é questão de tempo para ele renascer. O que estou dizendo é que é apenas uma questão de tempo para que o ser humano consiga se curar dessa fratura, pois a natureza sempre encontra o seu caminho.

sábado, 31 de agosto de 2019

A imagem do Feminino na Alquimia e sua vivência religiosa


                                                        

          Minha proposta aqui neste texto é falar sobre um assunto muito comum nos escritos de Jung, mas pouco falado no movimento da psicologia analítica, assim eu percebo. Existem muitos livros de Jung que tratam do assunto religião, e não simplesmente espiritualidade ou espiritualidades, mas religião no sentido tradicional da palavra. Certamente tal distanciamento do tema se dá devido ao antitradicionalismo evidente neste mundo pós-moderno, que atinge a todos indistintamente inclusive os junguianos. Mas o fato é que Jung trata desse assunto, seja de maneira pulverizada nos seus diversos textos, ou em textos específicos onde analisa a vivência religiosa de seus pacientes em relação a cultura coletiva, e seu método criado para tanto foi tão eficaz (e a gente sabe se um método de análise é eficaz quando os prognósticos se confirmam), que para vocês terem uma ideia, Jung conseguiu prever sobre o que iria acontecer com a Alemanha na 2ª Guerra Mundial, e na verdade já vinha alertando para os perigos das grandes ondas de pensamento coletivo que iriam tomar grandes proporções no século XX e levar aos ismos que nós sabemos hoje em dia, e milhões de mortes. No sécuo XX as estimativas mais otimistas dizem que foi entre 60 a 85 milhões o que o comunismo, um dos ismos, matou, as mais realistas dizem que foi de 80 a 100 milhões, o nazismo tragou mais 11 milhões de vidas, 6 milhões só de judeus. Os pensamentos coletivos se transformam em dragões que soltam fogo quando ativados, e são muito difíceis de controlá-los uma vez que eles comecem a manifestar a sua ira. Ele conseguiu prever, analisar e alertar sobre os perigos disso olhando profundamente as mudanças nas grandes religiões tradicionais, e o que aparecia no inconsciente dos seus pacientes alemães em sincronia com essas mudanças.
          É uma pena que pouco se fale sobre isso e pouco se estude, na verdade o que vemos hoje é o fomento justamente dos pensamentos coletivos em nossa sociedade, que parece estar em processo de dissolução alquímica. Bauman foi feliz ao usar o termo modernidade líquida para caracterizar o nosso tempo. Mas o que são várias cabeças pensando como uma coisa só, senão um flerte com os dragões coletivos adormecidos? Não dá para se ter diálogos com dragões, pois diálogo nós temos sempre com o ser humano individual que tem a liberdade de experimentar a realidade por si só, com a turba não dá para se ter diálogos, a turba faz horrores contra a humanidade em nome do bem, e depois não sentem culpa alguma do que fizeram, pois só o indivíduo pode sentir culpa e construir valores. A turba julga e condena inocentes sem sentir remorso algum. Jung, e não só Jung, pensadores, como Mircea Eliade, o historiador Paul Johnson, e outros, já haviam percebido que uma das grandes maneiras de a humanidade não ser vítima de pensamentos coletivos é através da vivência individual – eu friso o individual aqui - dentro de um sistema religioso ou tradicional que já tenha estruturas formadas para conter essas energias arquetípicas destruidoras, e isso não é formado da noite para o dia, leva milênios para que essas estruturas se decantem e se formem a partir das grandes ondas do mar do inconsciente, domadas por espíritos notáveis, que constroem com essas energias e deixam o legado para que outros continuem o trabalho.
Essas estruturas formadas podem estar à disposição do indivíduo na sua cultura, ou não, se nada mais restar. Esse caminho sagrado pode permitir o nascer e o florescimento da individualidade se assim a pessoa o desejar e querer trilhar o caminho também. É um caminho que está lá na cultura deixado por seus ancestrais, pelos seus antepassados, e nos apropriando dessa herança é que podemos nos tornar propriamente humanos!
            Para não deixar pontas soltas, permitam-me adentrar num tema antes de falar sobre o feminino e sua vivência religiosa. Eu imagino que vocês possam se perguntar o que aconteceu na cultura religiosa alemã antes da segunda guerra mundial, e o que Jung via nos sonhos dos seus pacientes alemães. Eu lhes digo, na cultura religiosa começou a haver uma série de fragmentações, houve o fomento de um retorno a já adormecida há muito tempo “religião nórdica”. Eu coloco entre aspas, pois eram na verdade reminiscências de uma protoreligião antiga e não uma religião no pleno sentido do termo, e, por conseguinte, houve o retorno do culto do Deus Wotã, principalmente entre os jovens revoltos. Em paralelo a esse reafirmar de uma etnia/raça alemã, digamos assim, com culto próprio, acompanhado de mitos, e ritos esotéricos nórdicos, inclusive com sacrifícios ao Deus Wotã, houve a amálgama dessa situação com o pensamento Darwiniano de que há diversas raças, e da adaptação ao meio ambiente do mais forte. Darwin, como sabemos, foi um dos que atacaram diretamente a cultura cristã que dava sentido àquelas sociedades europeias, além disso, aquele pensamento romântico do super-homem cuja flor podemos encontrar em Nietzsche, que também atacava frontalmente a religião cristã. Mas lembram que Nietzsche morreu louco possuído pelo Deus Wotã? Nietzsche falava no início em Deus Wotã, mas depois o identificou com Dionísio nos seus estudos clássicos. Soma-se a tudo isso o estopim que foi o ressentimento alemão (nunca subestimem o ressentimento de um povo, isso é coisa que não deve ser estimulada, embora haja muitas políticas coletivas que estão fazendo exatamente isso hoje em dia!). O motivo do ressentimento dos alemães se devia a perda ainda muito recente na 1ª guerra mundial e a crise econômica que assolava o país.
Jung via nos sonhos dos alemães justamente isso, muito ressentimento e sentimentos de inferioridade, ele juntou essa informação com toda aquela ideia do redespertar étnico/racial nórdico, e para o dragão despertar na política praticamente só precisava de uma única coisa: a identificação do mal em alguém ou em algum grupo, para que eles pudessem ter motivo para lutar “pelo bem e contra o mal”. A luta política sempre é uma luta arquetípica do bem contra o mal, onde os indivíduos pulam de maneira desnorteante de um oposto ao outro sem proteção alguma. Lembram da Daenerys no fim de Game Of Thrones montada no seu dragão numa terra fictícia? Louca e destruindo tudo? Daenerys da Casa Targaryen , Primeira de seu nome, Nascida da tormenta, A não queimada, Mãe dos Dragões, A Quebradora das correntes, Mãe dos escravos? E que nos decepcionou a todos sendo tomada pelo mal de uma maneira trágica no final da história? Pois é! Aquilo é bem real! Ela supostamente lutava pelo bem libertando escravos por onde passava, mas sua sombra altamente polarizada e não integrada toma conta, e ela é possuída e destrói aqueles que ela queria libertar, porque tratava-se de poder e não de amor, mas isso ela não podia ver, tão polarizada que estava sua alma. Mas voltando aos alemães, eles só precisavam agora de um bode expiatório, e ele estava ali nos diversos livros que já circulavam dentro de universidades, colocando a culpa dos males do mundo e econômicos nos judeus, e diversas lendas sobre eles já disseminadas. Não pensem que os alemães ao entrarem nesta achavam que era a equipe Rocket que luta pelo mal, que ia denunciar os males da verdade e do amor, a turba não se identifica com o mal nunca, é sempre um ódio do bem, uma ignorância do bem.
Quem sabe tudo isso poderia ter sido evitado, ou ao menos bastante minimizado, se as pessoas comuns encontrassem um caminho para viver as forças arquetípicas que se levantavam, dentro de um sistema religioso tradicional que propiciasse esse olhar para dentro? Que proporcionasse o reconhecimento das polaridades da alma e o cultivo das virtudes pelo seu domínio consciente? Quem sabe? Mas o que ocorria com o antigo caminho ocidental? O que ocorria com a religião tradicional cristã por essa época? A religião cristã estava bem arruinada com tantos ataques, e começa-se a criar na verdade um cristianismo que poderíamos chamar de cristianismo positivo, não mais aquela imagem de Jesus sofredor na cruz quando você entra na Igreja, e todos os mistérios que rondam esses arquétipos cristãos, “não... isso é muito mal”, o cristo era apresentado sempre feliz, alegre, forte, próspero, um super-homem, uma compensação para os reais sentimentos de inferioridade que aquele povo sentia, ou seja, começou-se a esvaziar os arquétipos cristãos do seu real sentido, justamente os que foram criados a duras penas para auxiliar na contenção da barbárie lupina humana. O reino de Deus era buscado agora neste mundo, e não em outro mundo transcendente, enfim, era uma religião secularizada, cheia de músicas alegres, extrovertidas, e que não cumpria mais com sua função propriamente religiosa.
Toda essa digressão foi para dizer o seguinte: é importantíssimo estudar não só os mitos e contos de fadas, ou os arquétipos de maneira isolada, mas também as religiões vivas que formam o corpo da nossa sociedade (as principais, as de menor alcance, as tendências religiosas, e as religiões negadas) com olhar científico dos que amam e buscam a verdade e sem pré-conceitos anti-religiosos, como me parece haver em demasia na atualidade. Infelizmente tais resistências nesse campo de estudo só nos atrasam na busca da compreensão do que acontece hoje no mundo, e em última análise na compreensão da psicologia analítica como um todo e no auxílio aos nossos pacientes com o uso de sua teoria. É importante e muito revelador estudar a dinâmica das pessoas inseridas em uma cultura religiosa ou até mesmo que vivam a religião católica, protestante, espírita, umbandista e outras, diretamente, por estarem inseridas nelas, frequentando seus espaços e bebendo de suas fontes, ou indiretamente, porque suas psiques estão inescapavelmente em contato direto com esse legado dos antepassados e se desenvolvendo através dele de maneira mais ou menos inconsciente. E por fim, é importantíssimo levar em conta o desenvolvimento dos arquétipos dentro dos grandes movimentos religiosos da história, justamente para entender a evolução de nossa psique dentro da história.
E é aí que entramos no tema que gostaria de trazer para vocês, a alquimia que a imagem do feminino operou na história ocidental pela via de uma grande religião tradicional: sim, a religião Católica. Essa religião dominante no passado recente, é indispensável para entender o nosso psiquismo cá no ocidente. Jung logo entendeu isso mesmo vivendo num meio protestante como era a Suíça de sua época, pois olhou para os arquétipos. Por incrível que possa parecer, essa religião de mais de 2000 anos de idade acolheu desde seu início a imagem do feminino na figura de Maria, como Mãe de Deus, que foi elevada a posição de Rainha do universo, estando inclusive acima e comandando os anjos, ou seja, é definitivamente uma imagem arquetípica feminina que foi alçada ao plano divino. Mas não só Maria, por existir a devoção aos santos, o católico popularmente se relaciona com muitas outras imagens femininas de maneira interiorizada, pois existe toda uma miríade de santos e santas camonizadas e padroeiras de diversos aspectos e papéis da vida humana.
Isso é incrível e raro numa religião monoteísta, pois resumidamente podemos ver duas outras grandes religiões: o judaísmo e o islamismo, em que o feminino não é integrado desse jeito (eu não estou falando dos esoterismo e misticismos que são dissidências menores dentro dessas culturas, mas do feminino presente em uma religião tradicional monoteísta grande e complexa capaz de orientar um povo). Mas depois o feminino arquetípico passou a ser negado dentro do cristianismo, em outra grande religião que hoje domina o ocidente junto com a tendência ateística evidente, que é o protestantismo e suas inúmeras variações, principalmente na Europa e nos EUA, e observa-se a mesma tendência de crescimento no Brasil antes predominantemente católico devido as suas raízes formacionais. Quando mais distante do protestantismo inicial, parece que pior fica para o feminino, e porque não dizer, para as mulheres que vivem essas religiões em dissolução já bem antes do mundo pós-moderno. Evangélicos e pentecostais ou neo-pentecostais colocam Maria lá embaixo, inclusive às vezes a coisa se fanatiza tanto que aparece ódio às figuras femininas, aí sim, com interpretações da bíblia que desvalorizam a mulher.
Jung observava em seu consultório as diferenças psíquicas entre protestantes e católicos, e dizia que os protestantes eram mais propensos ao neuroticismo, e na verdade era raro um católico visitar o seu consultório. Jung se interessou por esse assunto e foi realmente estudar os símbolos do catolicismo presentes nas missas, e os mistérios cristãos, para ver se entendia por que isso acontecia. Além disso, sua posterior incursão na alquimia ocidental o levou novamente ao estudo de muitos textos e simbolismo católicos para entendê-la, por isso que tantas referências latinas causam certa dificuldade na leitura dos textos junguianos dessa fase.
Movida por essas reflexões e pelo exemplo de Jung, eu comecei a notar se havia diferença psíquica nos meus pacientes aqui no Brasil, dos que vinham de religião católica e dos que vinham de religiões protestantes em geral (ou outras denominações, como Tetemunhas de Jeová, etc.), e posso dizer que a primeira vista há diferença sim. Os casamentos mais harmônicos que observei, embora mais raros, eram de católicos praticantes de fato, e não de boca, e os casamentos com mais problemas e violências à mulher principalmente, mas também outras violências, vinham de famílias protestantes ou outras denominações, inclusive eu tive a sorte de atender membros de famílias de casais pastores evangélicos, seja filhos, ou um dos pares do casal, e vi exatamente isso. Essa foi a minha experiência, e eu espero não causar polêmicas, nem que vocês pensem que estou generalizando. As pessoas que vão ao consultório são pessoas que estão indo pedir ajuda, ou seja, é um público bem específico que está longe de abarcar um universo quantitativo real, mas acho que qualitativamente, ela pode nos dar um norte, e ao mesmo tempo nos auxiliar a levantar perguntas, como Jung fez. Apesar disso, nunca vi nenhuma pesquisa a respeito no Brasil, mas é uma área que bem que poderia ser explorada, ou seja, se há essa correlação. Fica a pergunta, será que os efeitos que a exteriorização da imagem do feminino na religião, ou sua recusa radical, irradiariam em última instância para as pessoas em suas relações reais?
Mas uma coisa mais marcante para mim foi que observei em mulheres católicas devotas de Maria ou outras santas, que há aquela tendência de elas virarem grandes matriarcas. Sabe aquelas famílias em que há um complexo da grande mãe, a avó que une a família toda, e que parece que quando morre a família desaba? Esse matriarcado pouco falado é uma situação muito presente. Na verdade podemos constatar hoje que este matriarcado está na sombra do discurso pós-moderno, que dá grande ênfase ao patriarcado e esquece-se de falar do outro lado que existe e sempre existiu em nossa cultura. O feminino tenta há muito tempo um casamento harmônico com o masculino, e porque não dizer que a imagem masculina também faz esses movimentos a partir do inconsciente? Na verdade as irradiações dessa imagem do feminino a longo prazo podem ter modificado inclusive o casamento até ele virar monogâmico no ocidente, pois os casamentos anteriormente na Grécia e em Roma, ou na antiga religião judaica podia se dar entre um homem e várias mulheres, ou servas, e isso sempre era um prejuízo para as mulheres. Além disso, podemos ver que no mundo Antigo os homens desenvolviam relacionamentos mais afetuosos ou amizade profunda com outros homens, enquanto eram casados com mulheres para procriarem. Quem sabe o casamento monogâmico não é na verdade uma conquista do feminino venusiano? Ou do feminino mariano ao longo da história? Quem sabe o casamento monogâmico não é uma conquista do matriarcado? Além disso, aconteceu recentemente no ocidente o advento do casamento em que os noivos se escolhem, e não mais é a família quem arranja o casamento. Será essa uma conquista do amor? Afinal, não é o feminino arquetípico que quer aprofundar os afetos familiares e as relações pessoais? Não é o feminino que nos lembra que a vida afetiva e seu aprofundamento é mais importante que o trabalho e o poder político, e que na verdade estes último devem servir a vida? Isso é representado nos mitos do Graal, que há muito foram incorporados na cultura cristã, com o homem que se curva para servir ao arquétipo feminino que cuida da vida, e assim as forças masculinas que não podem ser destruídas mas apenas canalizadas, encontram o seu destino. Podemos encontrar essa estrutura em diversos contos de faz de conta e lendas, como São Jorge que matou o dragão para salvar a princesa. Embora toda mulher possa ser uma guerreira, não é nessa dominância arquetípica que ela, nem o homem, vivem a dinâmica do amor que une o feminino e o masculino.
Quando passei a entender o papel do feminino nessa grande religião as coisas começaram a ficar mais claras, por exemplo, por que que em épocas remotas e predominantemente católicas houveram rainhas? Inclusive a ponto de o povo as reconhecer como rainha e defendê-las de golpes. Isso era muito antes do feminismo e das conquistas tecnológicas atuais que libertaram as mulheres de tantas formas, então, não era para um povo com valores patriarcais exclusivos aceitarem serem governados por uma rainha de jeito nenhum naqueles idos, mas não era isso que acontecia.
Muitos mistérios foram perdidos com essa cisão entre catolicismo e protestantismo, que ficou com a sola scriptura, mas sem dúvida uma das maiores perdas foi a imagem do feminino coroado. Por último eu gostaria de trazer uma informação sobre o que diz a Igreja Católica e os papas sobre o mito de Adão e Eva. São coisas que não estão na bíblia porque a Igreja Católica não é só a bíblia, há tradição oral, hinários e muitos outros livros e documentos que trazem o conteúdo real dessa religião sem os quais não podemos entendê-la. Esse é o exemplo de uma erva daninha atual que mina com essa possibilidade de entendimento. Sempre escuto e leio com muita veemência, emotiva inclusive, a história de que está escrito na bíblia que no início Deus criou o homem e a mulher para viver no paraíso e que foi por culpa de Eva que comeu a maça seduzida pelo diabo que tudo foi arruinado, e que ambos foram castigados, mas que a Igreja coloca toda a culpa disso no ser feminino corruptor e corruptível. Esse mito fundador e exemplificativo cristão se traduziria em grande desvalorização da mulher no nosso mundo, e sempre foi assim porque está é uma religião patriarcal. Opa! Precisamos analisar esse dado tão difundido. De que religiões estão falando? Do protestantismo, dos evangelismos, ou do catolicismo que predominou na história ocidental? E isso só para começar, pois muitas outras coisas precisam ser melhor analisadas.
Em resumo, o dogma católico diz que tanto Adão como Eva caíram em tentação ao comerem da maça proibida, os dois sendo igualmente corruptíveis e culpados, os dois também foram expulsos do paraíso e os dois igualmente castigados. Na verdade, até essa parte o catolicismo fala a mesma coisa que o protestante que lê corretamente a bíblia, e não a adultera, fala, pois é isso que está lá escrito. Depois os livros do Antigo Testamento seguem com muitas histórias de profetas, que na verdade não conseguiam voltar para aquele paraíso perdido, mas acreditavam. O Antigo Testamento mostra homens e mulheres reais e cheios de pecados, tentado acertar para restabelecer uma ligação correta com Deus. Mas daí vem a encarnação de Jesus Cristo no Novo Testamento através do sim e da obediência da Virgem Maria. Jesus Cristo é o Segundo Adão que também é obediente a Deus até o fim, inclusive com morte de cruz, ou seja, com o sacrifício de sua vida, já Maria é a Segunda Eva que participa dos mistérios da redenção da humanidade. A Igreja Católica usa exatamente esses termos: Segundo Adão e Segunda Eva: a Virgem Maria é co-Redentora neste mistério. Esse é a história contada que está presente nos documentos dos papas e nos principais doutores da Igreja. Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Tereza D’Avila, todos sabem disso perfeitamente. Esse mito não justifica nem fala de patriarcado, ele fala da queda do gênero humano, e depois do resgate da humanidade em que há participação idêntica do masculino e do feminino para concretizar-se. Agora, o porquê da versão tão disseminada em escritos acadêmicos e na sociedade de que esse mito fala do patriarcado e coloca toda a culpa nas mulheres dos males do mundo, isso é coisa que eu não sei dizer.
Em resumo, a tese de Jung é que a vivência do arquétipo feminino propiciou no decorrer desses séculos, de maneira paulatina, mas inexoravelmente, uma mudança profunda na nossa cultura, que podemos ainda hoje usufruir apesar das tantas contradições que o nosso mundo líquido traz. A vivência da imagem do feminino no catolicismo tornou possível um sincretismo com outras religiões no decorrer da história em que havia o espaço para o feminino também, como aconteceu na Igreja Católica Céltica, um rito menor do catolicismo pouco conhecido, mas que absorveu muitos valores célticos na Igreja, e deram origem há muitos monastérios de monjas que impulsionaram mais ainda a integração desse arquétipo na cultura, além de darem origem há muitos mitos e lendas. Toda essa história seguiu até o ponto de em 1950 o Papa Pio XII tornar oficial o Dogma da Assunção de Maria aos Céus, fato que foi esperado por Jung com grande expectativa, e que ele via como confirmação dos seus estudos sobre o desenvovimento e integração do arquétipo feminino dentro de uma religião viva e mistérica. De fato, grandes mudanças estavam se dando na cultura em relação as mulheres e esse evento estava em sincronia, do ponto de vista da teoria junguiana, com essas mudanças.
Com a Igreja Ortodoxa Cristã no oriente vemos também uma mística do feminino belíssima e muito acentuada, e isso não é à toa, pois ambas as religiões vieram de uma fonte oral única que conseguiu integrar o feminino numa imagem exaltada, e que então passou a ser venerada. Existem muitas religiões menores em que há imagens do feminino, mas a incorporação de uma imagem do feminino numa religião monoteísta complexa e de grande alcance foi um grande feito do inconsciente coletivo e da civilização. Foi uma grande integração que as pessoas pouco se dão conta, por não pensarem tanto a respeito, e também porque há muitos pensamentos errôneos que são como ervas daninhas, e que necessitam ser aparados ou arrancados para que se veja com mais clareza o terreno. Só assim poderíamos perceber o que essa alquimia lenta e gradual significou para a nossa cultura, e poderíamos também imaginar como seria se essa barca que leva a imagem de uma grande mãe arquetípica e humanizada afundasse para sempre, num mundo hipotético, ou se ela nunca tivesse existido...

Ana Paula Chaplin Andrade
31/08/2019
Apresentação oral na Jornada de Psicologia Junguiana da PROFINT