domingo, 24 de abril de 2022

Por que os alquimistas fazem segredo da alquimia?

        


        É quase que unânime a opinião de que a origem da alquimia se deu no mundo egípcio. Tecnologicamente o grande avanço que aquele povo teve ainda hoje intriga egiptólogos e a humanidade. Também intriga os cientistas devido a complexidade religiosa que lá existiu, sendo inclusive a origem da concepção monoteísta de deus por um curto espaço de tempo. O Deus dos deuses fora aglutinado na imagem do Sol no reinado de Akenaton e sua esposa Nefertite.

        Foi no Egito que os alquimistas começaram a fazer segredo de seus conhecimentos. Somente quem os detinha eram os sacerdotes, e se estes quebrassem seus votos de silêncio eram punidos com o ostracismo, ou mesmo com a morte pelos de sua própria casta sacerdotal. Assim como no mundo de hoje, muitas vezes o grande faraó era na verdade dominado por aqueles que realmente tinham o poder, naquele contexto era a casta religiosa que o detinha. O faraó para saber de alguns segredos tinha que passar por vários rituais.

        Os sacerdotes entronizavam suas concepções alquímicas do universo, e sua contraparte, a astrologia,  na sua religião. E, na verdade, podemos pensar se de fato havia separação entre estas e a religião egípcia? Suas mega construções atestam a filosofia de que o que está em cima é igual ao que está embaixo. Por meio dessas construções se buscava trazer para a terra as forças celestiais e levá-las da volta para o céu, pois acreditava-se na magia dessas construções para beneficiar o Egito. 

    A tábua de Esmeralda escrita por sacerdotes do deus Thoth traz a ideia da unidade do universo entre o que está em cima e o que está em baixo, além de toda a ideia de que os astros e elementos da natureza se unem para criar o mundo, inclusive o homem e a mulher divinizados e encarnados neste mundo. Também há a ideia na tábua esmeraldina de que todas as ciências e tecnologias que o ser humano poderia criar viriam das inumeráveis adaptações contidas sinteticamente nos princípios thothianos presentes na tábua.

        A alquimia nunca esteve separada da astrologia no Egito e nem em nenhuma época e lugar. Os astros eram forças ou deuses planetários sempre presentes. Os sacerdotes certamente eram astrólogos que adoravam diversos deuses, numa amálgama de crenças em constante gestalt para a formação de um todo coerente. Podemos ver essas concepções convivendo juntas na Índia de hoje, e não é difícil imaginar tal convivência no Egito Antigo, ou seja, diversas personificações de deuses junto com forças planetárias ou astrológicos. Dessa forma podemos entender que por um curto período tenha sido possível a maturação da ideia de que a principal divindade no Egito tenha sido o sol, astro que daria a luz a todas as outras divindades, já que isto estava implícito no sistema astrológico, ou seja, uma consciência monoteísta estava em vias de desenvolvimento por meio da imagem mandálica do sistema solar.

        Nessa imagem mandálica o sol é o astro central, ele é a origem da luz. Além disso, ele é o astro regente, sendo todos os outros satélites e planetas visíveis somente na medida em que podem refletir a luz em torno do qual giram. Desnecessário dizer que o conhecimento do nosso sistema solar já era presente entre os povos antigos, e que também existia uma matemática que permitia a realização de cálculos bastante precisos acerca dos movimentos dos corpos celestiais. Os calendários deles também eram bastante precisos.

        Akenaton foi um faraó que trouxe por um curto período de tempo esse tipo de ideia de um astro ou Deus central. Akenaton significa aquele que reflete o sol, ou aquele que serve ou manifesta Aton. Na alquimia o Sol estava relacionado ao ouro, objeto sempre presente nos cultos de adoração do Egito por representar simbolicamente a luz imortal na terra. Muito provavelmente Akenaton, sua esposa, e mesmo seu filho que o substituiu, Tutankamon, foram mortos pelas forças conservadoras sacerdotais de Tebas.

        Por volta do ano 300 a.C uma coisa inédita na história aconteceu: um verdadeiro golpe na casta sacerdotal Egípcia. Um conquistador bem generoso no que diz respeito ao conhecimento surgiu. Chamado Alexandre, o Grande, ele deu início ao Egito-Helênico que durou até o ano 300 d.C. aproximadamente. Alexandre era um verdadeiro cosmopolita, que levou para suas conquistas as ideias da Grécia do amor ao conhecimento e à verdade. Foi em Alexandria que foi fundada a maior biblioteca do mundo antigo onde fora exposto para o público todo o conhecimento disponível do Egito. Aliás, a princípio esse foi o principal propósito da biblioteca, guardar os famosos textos contidos nos pilares de Hermes e outros textos do Egito. Logo a cidade passou a atrair sábios de todo o mundo conhecido, que levavam outras formas de conhecimento e sabedoria, além de disseminarem para outros lugares tudo o que estava sendo construído nessa efervescente cidade. 

        Me parece que a  humanidade em geral não gosta muito de luz. A biblioteca de Alexandria foi queimada diversas vezes por outros conquistadores até quase nada mais restar. Porém, antes de se entrar na idade das trevas a biblioteca já havia cumprido sua missão: o conhecimento antigo se espalhou, se desenvolveu em novas e melhores formas para depois ser possível o seu retorno. Mas muita coisa tem que ser resgatada, pois há de fato conhecimentos que foram perdidos.

        Já na época da Alexandria o mais famoso dos alquimistas havia novamente mostrado a tendência antiga dos egípcios de se esconder o conhecimento alquímico. O nome dele era Zózimo de Panápolis, um gnóstico oriundo das primeiras vertentes cristãs do gnosticismo. Os livros de alquimia no oriente, como na Índia ou China, são sempre muito mais claros, e no ocidente toda a coisa é velada desde o Egito, passando pelos gnósticos e chegando a muitos alquimistas da idade média, renascimento e sociedades "secretas" atuais. Os livros ressuscitados por Jung em sebos eram livros que sempre escondiam e confundiam os significados dos símbolos alquímicos, e, na verdade, este conseguiu entender muita coisa graças ao seu método de simbologia e mitologia comparada, ou seja, justamente pela sua excursão em outras culturas.  

        A proposta do segredo sempre é acompanhada de ideias religiosas e místicas que estratificam a sociedade entre aqueles que sabem daqueles que não sabem, origem das castas. Os maçons, por exemplo, que se dizem os herdeiros dos mistérios egípcios, também funcionam como sociedade secreta, fazendo segredos e mistérios. Também, como sabemos, e essa parte eles não escondem, são formados preferencialmente por pessoas que visam poder mundano e influência na sociedade.

        Como nos é passado na versão da histórica atual, onde temos um bode expiatório bem identificado, nos dizem que os alquimistas faziam tanto segredo porque a Igreja Católica os iriam perseguir. Bem, isso não explica muita coisa. No Egito não existia esse bode expiatório, com Zózimo também esta não existia enquanto poder para perseguir ninguém na Alexandria. Por que Zózimo proporia novamente o segredo depois de toda a liberdade que ele experimentou na Alexandria? Também não explica porque os alquimistas católicos são os mais claros em seus textos a respeito dos conhecimentos de sua época, enfim... também não explica essa continuidade histórica que podemos encontrar, só a título de exemplo, na maçonaria que se arvora herdeira desse conhecimento que para eles deve ser secreto por motivos intrínsecos a sua organização, e não porque se sintam ameaçados por algo que venha de fora.

        Desde Jung e Mircea Eliade, e desde a abertura maior para a tradução de livros de alquimia de outros povos de línguas diversas, que surge no mercado editorial publicações mais claras e comprometidas com o saber, que aos poucos vão revelando o que de fato é a alquimia, sem dar azo a criações místicas e meio esquizotípicas que os segredos propiciam. Essa atitude que secreta sempre foi um terreno fértil para que a imaginação humana realmente "saísse da casinha", atraindo aqueles que tem essa tendência, e levando a cada vez mais descrédito tais formas de conhecimento acerca do corpo, da alma e do espírito, do mundo e do cosmos. Os livros históricos tem sido recuperados, os símbolos descerrados, o que foi feito para despistar tem sido desmascarado e o que é de fato real fica mais claro.

        Não precisamos nem é possível esconder a luz do sol, do conhecimento e da verdade.  Se o conhecimento alquímico é velado a alguns é por causa de sua natureza simbólica que necessita de vivência, reflexão, e sabedoria interior para ser aberto. No mais, o sol é gratuito e brilha para todos bastando se ter olhos para ver.


"Não há ninguém que depois de acender uma candeia a esconda debaixo de um jarro, ou a coloque sob a cama. Ao contrário, coloca-a num lugar apropriado, de maneira que todos aqueles que entrem vejam o resplandecer da luz" (Lucas 8:16).

        


Nenhum comentário:

Postar um comentário