Minha proposta aqui neste texto é falar sobre um assunto muito comum nos escritos de Jung, mas pouco falado no movimento da psicologia analítica, assim eu percebo. Existem muitos livros de Jung que tratam do assunto religião, e não simplesmente espiritualidade ou espiritualidades, mas religião no sentido tradicional da palavra. Certamente tal distanciamento do tema se dá devido ao antitradicionalismo evidente neste mundo pós-moderno, que atinge a todos indistintamente inclusive os junguianos. Mas o fato é que Jung trata desse assunto, seja de maneira pulverizada nos seus diversos textos, ou em textos específicos onde analisa a vivência religiosa de seus pacientes em relação a cultura coletiva, e seu método criado para tanto foi tão eficaz (e a gente sabe se um método de análise é eficaz quando os prognósticos se confirmam), que para vocês terem uma ideia, Jung conseguiu prever sobre o que iria acontecer com a Alemanha na 2ª Guerra Mundial, e na verdade já vinha alertando para os perigos das grandes ondas de pensamento coletivo que iriam tomar grandes proporções no século XX e levar aos ismos que nós sabemos hoje em dia, e milhões de mortes. No sécuo XX as estimativas mais otimistas dizem que foi entre 60 a 85 milhões o que o comunismo, um dos ismos, matou, as mais realistas dizem que foi de 80 a 100 milhões, o nazismo tragou mais 11 milhões de vidas, 6 milhões só de judeus. Os pensamentos coletivos se transformam em dragões que soltam fogo quando ativados, e são muito difíceis de controlá-los uma vez que eles comecem a manifestar a sua ira. Ele conseguiu prever, analisar e alertar sobre os perigos disso olhando profundamente as mudanças nas grandes religiões tradicionais, e o que aparecia no inconsciente dos seus pacientes alemães em sincronia com essas mudanças.
É uma pena que pouco se fale sobre isso e pouco se estude, na verdade o que vemos hoje é o fomento justamente dos pensamentos coletivos em nossa sociedade, que parece estar em processo de dissolução alquímica. Bauman foi feliz ao usar o termo modernidade líquida para caracterizar o nosso tempo. Mas o que são várias cabeças pensando como uma coisa só, senão um flerte com os dragões coletivos adormecidos? Não dá para se ter diálogos com dragões, pois diálogo nós temos sempre com o ser humano individual que tem a liberdade de experimentar a realidade por si só, com a turba não dá para se ter diálogos, a turba faz horrores contra a humanidade em nome do bem, e depois não sentem culpa alguma do que fizeram, pois só o indivíduo pode sentir culpa e construir valores. A turba julga e condena inocentes sem sentir remorso algum. Jung, e não só Jung, pensadores, como Mircea Eliade, o historiador Paul Johnson, e outros, já haviam percebido que uma das grandes maneiras de a humanidade não ser vítima de pensamentos coletivos é através da vivência individual – eu friso o individual aqui - dentro de um sistema religioso ou tradicional que já tenha estruturas formadas para conter essas energias arquetípicas destruidoras, e isso não é formado da noite para o dia, leva milênios para que essas estruturas se decantem e se formem a partir das grandes ondas do mar do inconsciente, domadas por espíritos notáveis, que constroem com essas energias e deixam o legado para que outros continuem o trabalho.
Essas estruturas
formadas podem estar à disposição do indivíduo na sua cultura, ou não, se nada
mais restar. Esse caminho sagrado
pode permitir o nascer e o florescimento da individualidade se assim a pessoa o
desejar e querer trilhar o caminho também. É um caminho que está lá na cultura
deixado por seus ancestrais, pelos seus antepassados, e nos apropriando dessa
herança é que podemos nos tornar propriamente humanos!
Para
não deixar pontas soltas, permitam-me adentrar num tema antes de falar sobre o
feminino e sua vivência religiosa. Eu imagino que vocês possam se perguntar o
que aconteceu na cultura religiosa alemã antes da segunda guerra mundial, e o
que Jung via nos sonhos dos seus pacientes alemães. Eu lhes digo, na cultura
religiosa começou a haver uma série de fragmentações, houve o fomento de um
retorno a já adormecida há muito tempo “religião
nórdica”. Eu
coloco entre aspas, pois eram na verdade reminiscências de uma protoreligião
antiga e não uma religião no pleno sentido do termo, e, por conseguinte, houve
o retorno do culto do Deus Wotã, principalmente entre os jovens revoltos. Em paralelo a
esse reafirmar de uma etnia/raça alemã, digamos assim, com culto próprio, acompanhado
de mitos, e ritos esotéricos nórdicos, inclusive com sacrifícios ao Deus Wotã,
houve a amálgama dessa situação com o pensamento Darwiniano de que há diversas
raças, e da adaptação ao meio ambiente do mais forte. Darwin, como sabemos, foi
um dos que atacaram diretamente a cultura cristã que dava sentido àquelas
sociedades europeias, além disso, aquele pensamento romântico do super-homem
cuja flor podemos encontrar em Nietzsche, que também atacava frontalmente a
religião cristã. Mas lembram que Nietzsche morreu louco possuído pelo Deus
Wotã? Nietzsche falava no início em Deus Wotã, mas depois o identificou com Dionísio nos seus estudos clássicos. Soma-se a tudo isso o estopim que foi o ressentimento alemão (nunca
subestimem o ressentimento de um povo, isso é coisa que não deve ser
estimulada, embora haja muitas políticas coletivas que estão fazendo exatamente
isso hoje em dia!). O motivo do ressentimento dos alemães se devia a perda
ainda muito recente na 1ª guerra mundial e a crise econômica que assolava o
país.
Jung via nos sonhos dos
alemães justamente isso, muito ressentimento e sentimentos de inferioridade,
ele juntou essa informação com toda aquela ideia do redespertar étnico/racial
nórdico, e para o dragão despertar na política praticamente só precisava de uma
única coisa: a identificação do mal em alguém ou em algum grupo, para que eles
pudessem ter motivo para lutar “pelo bem e contra o mal”. A luta política
sempre é uma luta arquetípica do bem contra o mal, onde os indivíduos pulam de
maneira desnorteante de um oposto ao outro sem proteção alguma. Lembram da
Daenerys no fim de Game Of Thrones montada no seu dragão numa terra fictícia? Louca e
destruindo tudo? Daenerys
da Casa Targaryen , Primeira
de seu nome, Nascida da tormenta, A não queimada, Mãe
dos Dragões, A Quebradora das correntes, Mãe dos escravos? E que nos decepcionou a todos
sendo tomada pelo mal de uma maneira trágica no final da história? Pois é!
Aquilo é bem real! Ela supostamente lutava pelo bem libertando escravos por onde passava, mas sua sombra altamente polarizada e não integrada toma conta, e ela é possuída e destrói aqueles que ela queria libertar, porque tratava-se de poder e não de amor, mas isso ela não podia ver, tão polarizada que estava sua alma. Mas voltando aos alemães, eles só precisavam agora de um bode expiatório,
e ele estava ali nos diversos livros que já circulavam dentro de universidades,
colocando a culpa dos males do mundo e econômicos nos judeus, e diversas lendas
sobre eles já disseminadas. Não pensem que os alemães ao entrarem nesta achavam
que era a equipe Rocket que luta pelo mal, que ia denunciar os males da verdade
e do amor, a turba não se identifica com o mal nunca, é sempre um ódio do bem,
uma ignorância do bem.
Quem sabe tudo isso
poderia ter sido evitado, ou ao menos bastante minimizado, se as pessoas comuns encontrassem um
caminho para viver as forças arquetípicas que se levantavam, dentro de um
sistema religioso tradicional que propiciasse esse olhar para dentro? Que proporcionasse o reconhecimento das polaridades da alma e o cultivo das virtudes pelo seu domínio consciente? Quem sabe? Mas o que ocorria com o antigo
caminho ocidental? O que ocorria com a religião tradicional cristã por essa
época? A religião cristã estava bem arruinada com tantos ataques, e começa-se a
criar na verdade um cristianismo que poderíamos chamar de cristianismo
positivo, não mais aquela imagem de Jesus sofredor na cruz quando você entra na
Igreja, e todos os mistérios que rondam esses arquétipos cristãos, “não... isso
é muito mal”, o cristo era apresentado sempre feliz, alegre, forte, próspero, um
super-homem, uma compensação para os reais sentimentos de inferioridade que
aquele povo sentia, ou seja, começou-se a esvaziar os arquétipos cristãos do
seu real sentido, justamente os que foram criados a duras penas para auxiliar
na contenção da barbárie lupina humana. O reino de Deus era buscado agora neste
mundo, e não em outro mundo transcendente, enfim, era uma religião
secularizada, cheia de músicas alegres, extrovertidas, e que não cumpria mais com sua função propriamente religiosa.
Toda essa digressão foi
para dizer o seguinte: é importantíssimo estudar não só os mitos e contos de
fadas, ou os arquétipos de maneira isolada, mas também as religiões vivas que
formam o corpo da nossa sociedade (as principais, as de menor alcance, as
tendências religiosas, e as religiões negadas) com olhar científico dos que amam
e buscam a verdade e sem pré-conceitos anti-religiosos, como me parece haver em demasia na atualidade. Infelizmente tais resistências nesse campo de
estudo só nos atrasam na busca da compreensão do que acontece hoje no mundo, e
em última análise na compreensão da psicologia analítica como um todo e no auxílio
aos nossos pacientes com o uso de sua teoria. É importante e muito revelador
estudar a dinâmica das pessoas inseridas em uma cultura religiosa ou até mesmo
que vivam a religião católica, protestante, espírita, umbandista e outras,
diretamente, por estarem inseridas nelas, frequentando seus espaços e bebendo
de suas fontes, ou indiretamente, porque suas psiques estão inescapavelmente em
contato direto com esse legado dos antepassados e se desenvolvendo através dele
de maneira mais ou menos inconsciente. E por fim, é importantíssimo levar em
conta o desenvolvimento dos arquétipos dentro dos grandes movimentos religiosos da história, justamente para entender a evolução de nossa
psique dentro da história.
E é aí que entramos no
tema que gostaria de trazer para vocês, a alquimia que a imagem do feminino
operou na história ocidental pela via de uma grande religião tradicional:
sim, a religião Católica. Essa religião dominante no passado recente, é indispensável para entender o nosso psiquismo cá no ocidente. Jung logo entendeu isso mesmo vivendo num meio protestante como era a Suíça de sua época, pois olhou para os arquétipos. Por incrível que possa parecer, essa
religião de mais de 2000 anos de idade acolheu desde seu início a imagem do
feminino na figura de Maria, como Mãe de Deus, que foi elevada a posição de
Rainha do universo, estando inclusive acima e comandando os anjos, ou seja, é
definitivamente uma imagem arquetípica feminina que foi alçada ao plano divino. Mas não só Maria, por existir a devoção aos santos, o católico popularmente se relaciona com muitas outras imagens femininas de maneira interiorizada, pois existe toda uma miríade de santos e santas camonizadas e padroeiras de diversos aspectos e papéis da vida humana.
Isso é incrível e raro
numa religião monoteísta, pois resumidamente podemos ver duas outras grandes
religiões: o judaísmo e o islamismo, em que o feminino não é integrado desse
jeito (eu não estou falando dos esoterismo e misticismos que são dissidências
menores dentro dessas culturas, mas do feminino presente em uma religião
tradicional monoteísta grande e complexa capaz de orientar um povo). Mas depois
o feminino arquetípico passou a ser negado dentro do cristianismo, em outra
grande religião que hoje domina o ocidente junto com a tendência ateística
evidente, que é o protestantismo e suas inúmeras variações, principalmente na
Europa e nos EUA, e observa-se a mesma tendência de crescimento no Brasil antes
predominantemente católico devido as suas raízes formacionais. Quando mais
distante do protestantismo inicial, parece que pior fica para o feminino, e
porque não dizer, para as mulheres que vivem essas religiões em dissolução já
bem antes do mundo pós-moderno. Evangélicos e pentecostais ou neo-pentecostais
colocam Maria lá embaixo, inclusive às vezes a coisa se fanatiza tanto que
aparece ódio às figuras femininas, aí sim, com interpretações da bíblia que desvalorizam
a mulher.
Jung observava em seu
consultório as diferenças psíquicas entre protestantes e católicos, e dizia que
os protestantes eram mais propensos ao neuroticismo, e na verdade era raro um
católico visitar o seu consultório. Jung se interessou por esse assunto e foi
realmente estudar os símbolos do catolicismo presentes nas missas, e os mistérios
cristãos, para ver se entendia por que isso acontecia. Além disso, sua posterior
incursão na alquimia ocidental o levou novamente ao estudo de muitos textos e
simbolismo católicos para entendê-la, por isso que tantas referências latinas
causam certa dificuldade na leitura dos textos junguianos dessa fase.
Movida por essas
reflexões e pelo exemplo de Jung, eu comecei a notar se havia diferença
psíquica nos meus pacientes aqui no Brasil, dos que vinham de religião católica
e dos que vinham de religiões protestantes em geral (ou outras denominações, como Tetemunhas de Jeová, etc.), e posso dizer que a
primeira vista há diferença sim. Os casamentos mais harmônicos que observei, embora
mais raros, eram de católicos praticantes de fato, e não de boca, e os
casamentos com mais problemas e violências à mulher principalmente, mas também
outras violências, vinham de famílias protestantes ou outras denominações, inclusive eu tive a sorte de
atender membros de famílias de casais pastores evangélicos, seja filhos, ou um dos pares do casal, e vi exatamente isso.
Essa foi a minha experiência, e eu espero não causar polêmicas, nem que vocês pensem que estou generalizando. As pessoas que vão ao consultório são pessoas
que estão indo pedir ajuda, ou seja, é um público bem específico que está longe
de abarcar um universo quantitativo real, mas acho que qualitativamente, ela
pode nos dar um norte, e ao mesmo tempo nos auxiliar a levantar perguntas, como
Jung fez. Apesar disso, nunca vi nenhuma pesquisa a respeito no Brasil, mas é
uma área que bem que poderia ser explorada, ou seja, se há essa correlação.
Fica a pergunta, será que os efeitos que a exteriorização da imagem do feminino
na religião, ou sua recusa radical, irradiariam em última instância para as
pessoas em suas relações reais?
Mas uma coisa mais
marcante para mim foi que observei em mulheres católicas devotas de Maria ou
outras santas, que há aquela tendência de elas virarem grandes matriarcas. Sabe aquelas famílias em que há um complexo da grande mãe, a
avó que une a família toda, e que parece que quando morre a família desaba?
Esse matriarcado pouco falado é uma situação muito presente. Na verdade podemos
constatar hoje que este matriarcado está na sombra do discurso pós-moderno, que
dá grande ênfase ao patriarcado e esquece-se de falar do outro lado que existe
e sempre existiu em nossa cultura. O feminino tenta há muito tempo um casamento harmônico com o
masculino, e porque não dizer que a imagem masculina também faz esses movimentos
a partir do inconsciente? Na verdade as irradiações dessa imagem do feminino a
longo prazo podem ter modificado inclusive o casamento até ele virar monogâmico
no ocidente, pois os casamentos anteriormente na Grécia e em Roma, ou na antiga
religião judaica podia se dar entre um homem e várias mulheres, ou servas, e
isso sempre era um prejuízo para as mulheres. Além disso, podemos ver que no
mundo Antigo os homens desenvolviam relacionamentos mais afetuosos ou amizade
profunda com outros homens, enquanto eram casados com mulheres para procriarem.
Quem sabe o casamento monogâmico não é na verdade uma conquista do feminino
venusiano? Ou do feminino mariano ao longo da história? Quem sabe o casamento
monogâmico não é uma conquista do matriarcado? Além disso, aconteceu
recentemente no ocidente o advento do casamento em que os noivos se escolhem, e
não mais é a família quem arranja o casamento. Será essa uma conquista do amor?
Afinal, não é o feminino arquetípico que quer aprofundar os afetos familiares e
as relações pessoais? Não é o feminino que nos lembra que a vida afetiva e seu
aprofundamento é mais importante que o trabalho e o poder político, e que na
verdade estes último devem servir a vida? Isso é representado nos mitos
do Graal, que há muito foram incorporados na cultura cristã, com o homem que se curva para servir ao arquétipo feminino que
cuida da vida, e assim as forças masculinas que não podem ser destruídas mas apenas canalizadas, encontram o seu destino. Podemos encontrar essa estrutura em
diversos contos de faz de conta e lendas, como São Jorge que matou o dragão
para salvar a princesa. Embora toda mulher possa ser uma guerreira, não é nessa dominância arquetípica que ela, nem o homem, vivem a dinâmica do amor que une o feminino e o masculino.
Quando passei a entender o papel do feminino nessa grande religião as coisas começaram a ficar mais claras, por exemplo, por que que em
épocas remotas e predominantemente católicas houveram rainhas? Inclusive
a ponto de o povo as reconhecer como rainha e defendê-las de golpes. Isso era
muito antes do feminismo e das conquistas tecnológicas atuais que libertaram as
mulheres de tantas formas, então, não era para um povo com valores patriarcais exclusivos
aceitarem serem governados por uma rainha de jeito nenhum naqueles idos, mas
não era isso que acontecia.
Muitos mistérios
foram perdidos com essa cisão entre catolicismo e protestantismo, que ficou com
a sola scriptura, mas sem dúvida uma
das maiores perdas foi a imagem do feminino coroado. Por último eu gostaria de
trazer uma informação sobre o que diz a Igreja Católica e os papas sobre o mito
de Adão e Eva. São coisas que não estão na bíblia porque a Igreja Católica não
é só a bíblia, há tradição oral, hinários e muitos outros livros e documentos que trazem
o conteúdo real dessa religião sem os quais não podemos entendê-la. Esse é o
exemplo de uma erva daninha atual que mina com essa possibilidade de
entendimento. Sempre escuto e leio com muita veemência, emotiva inclusive, a
história de que está escrito na bíblia que no início Deus criou o homem e a
mulher para viver no paraíso e que foi por culpa de Eva que comeu a maça
seduzida pelo diabo que tudo foi arruinado, e que ambos foram castigados, mas
que a Igreja coloca toda a culpa disso no ser feminino corruptor e corruptível.
Esse mito fundador e exemplificativo cristão se traduziria em grande
desvalorização da mulher no nosso mundo, e sempre foi assim porque está é uma
religião patriarcal. Opa! Precisamos analisar esse dado tão difundido. De que religiões
estão falando? Do protestantismo, dos evangelismos, ou do catolicismo que
predominou na história ocidental? E isso só para começar, pois muitas outras coisas precisam ser melhor analisadas.
Em resumo, o dogma
católico diz que tanto Adão como Eva caíram em tentação ao comerem da maça
proibida, os dois sendo igualmente corruptíveis e culpados, os dois também
foram expulsos do paraíso e os dois igualmente castigados. Na verdade, até essa
parte o catolicismo fala a mesma coisa que o protestante que lê corretamente a
bíblia, e não a adultera, fala, pois é isso que está lá escrito. Depois os livros do Antigo Testamento
seguem com muitas histórias de profetas, que na verdade não conseguiam voltar
para aquele paraíso perdido, mas acreditavam. O Antigo Testamento mostra homens
e mulheres reais e cheios de pecados, tentado acertar para restabelecer uma
ligação correta com Deus. Mas daí vem a encarnação de Jesus Cristo no Novo
Testamento através do sim e da obediência da Virgem Maria. Jesus Cristo é o Segundo Adão que também é obediente a Deus até o fim, inclusive com morte de cruz, ou
seja, com o sacrifício de sua vida, já Maria é a Segunda Eva que participa dos
mistérios da redenção da humanidade. A Igreja Católica usa exatamente esses
termos: Segundo Adão e Segunda Eva: a Virgem Maria é co-Redentora neste
mistério. Esse é a história contada que está presente nos documentos dos papas
e nos principais doutores da Igreja. Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Tereza
D’Avila, todos sabem disso perfeitamente. Esse mito não justifica nem fala de
patriarcado, ele fala da queda do gênero humano, e depois do resgate da
humanidade em que há participação idêntica do masculino e do feminino para
concretizar-se. Agora, o porquê da versão tão disseminada em escritos
acadêmicos e na sociedade de que esse mito fala do patriarcado e coloca toda a
culpa nas mulheres dos males do mundo, isso é coisa que eu não sei dizer.
Em resumo, a tese de
Jung é que a vivência do arquétipo feminino propiciou no decorrer desses
séculos, de maneira paulatina, mas inexoravelmente, uma mudança profunda na
nossa cultura, que podemos ainda hoje usufruir apesar das tantas contradições
que o nosso mundo líquido traz. A vivência da imagem do feminino no catolicismo
tornou possível um sincretismo com outras religiões no decorrer da história em
que havia o espaço para o feminino também, como aconteceu na Igreja Católica
Céltica, um rito menor do catolicismo pouco conhecido, mas que absorveu muitos valores célticos na Igreja, e deram origem há muitos
monastérios de monjas que impulsionaram mais ainda a integração desse arquétipo
na cultura, além de darem origem há muitos mitos e lendas. Toda essa história
seguiu até o ponto de em 1950 o Papa Pio XII tornar oficial o Dogma da
Assunção de Maria aos Céus, fato que foi esperado por Jung com grande
expectativa, e que ele via como confirmação dos seus estudos sobre o desenvovimento e integração do arquétipo feminino dentro de uma religião viva e mistérica. De fato, grandes mudanças estavam se dando na cultura em relação as mulheres e esse evento estava em sincronia, do ponto de vista da teoria junguiana, com essas mudanças.
Com a Igreja Ortodoxa
Cristã no oriente vemos também uma mística do feminino belíssima e muito
acentuada, e isso não é à toa, pois ambas as religiões vieram de uma fonte oral
única que conseguiu integrar o feminino numa imagem exaltada, e que então passou a
ser venerada. Existem muitas religiões menores em
que há imagens do feminino, mas a incorporação de uma imagem do feminino numa
religião monoteísta complexa e de grande alcance foi um grande feito do
inconsciente coletivo e da civilização. Foi uma grande integração que as
pessoas pouco se dão conta, por não pensarem tanto a respeito, e também porque
há muitos pensamentos errôneos que são como ervas daninhas, e que necessitam ser
aparados ou arrancados para que se veja com mais clareza o terreno. Só assim
poderíamos perceber o que essa alquimia lenta e gradual significou para a nossa
cultura, e poderíamos também imaginar como seria se essa barca que leva a
imagem de uma grande mãe arquetípica e humanizada afundasse para sempre, num
mundo hipotético, ou se ela nunca tivesse existido...
Ana Paula Chaplin
Andrade
31/08/2019
Apresentação oral na
Jornada de Psicologia Junguiana da PROFINT
