quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Sobre a Alba Alquimia da Deusa Saraswati

           Ao ler sobre a Acqua Permanens na Alquimia-Ocidental-Cristã e seu papel dentro da albedo, surge-me a imagem deslumbrante da Deusa Saraswati, montada em seu veículo, o cisne branco. Muitas vezes ao utilizarmos da nossa capacidade imaginativa de comparação entre símbolos de diferentes culturas, descerramos significados sobre o Ser, que nos abrem portas para nosso próprio entendimento espiritual e material; afinal, conhecer o Ser e a sua realidade criada é conhecer a si mesmo, e vice-versa. Gratidão, então, à Deusa Saraswati por me ajudar a entender melhor a Acqua Permanens da sabedoria divina presente na alquimia.



        Saraswati está dentro de uma trindade divina de deusas hindus e seus inseparáveis consortes, simbolizando a criação, a sabedoria e o conhecimento do universo junto com Brama. Parte-se do princípio que o conhecimento é sobre a realidade divina criada como manifestação de Deus ou Braman, como chamam os hindus. Sem esse ponto de baliza, todo o conhecimento produzido será obscurecido pela ignorância e trevas, continuará no fundo, velado ao nosso entendimento. Do mesmo modo, na alquimia, a mensagem é clara: "conheça-te a ti mesmo". Significa conhecer o 'artifex' criador divino, que é retratado como a Unidade de um casal Real, Rei e Rainha do universo em constante transformação.
        Na alquimia, a sabedoria divina é representada pela Acqua Permanens, que pode ser traduzida como Água Eterna. O nome foi dado para indicar que este conhecimento é eterno e permanente, ou seja, as leis divinas não mudam. O abstrato e a unidade delas podem ser extraídos da criação, que se manifesta diante dos nossos olhos materiais de maneira multiforme.
        Diferente da pedra filosofal em que se acrescenta os elementos terrenos e fogosos coagulantes, a 'Água Eterna' resulta da união entre o elemento líquido sublimado e o ar. No processo de coniunctio desses elementos, a água sobe por meio da fé do alquimista (oração) em direção aos céus, busca a orientação e se une ao espírito que possui a verdade procurada, retorna então fecundada pelo ar para a terra, trazendo em si a sabedoria do alto.
        A água, por ser um elemento mais próximo da terra, pode umidificá-la, servindo como veículo que transporta o espírito celeste para dentro da matéria. Compreende-se assim também o mistério do batismo pela água, pois nesse sacramento ela está em sua forma de 'Acqua permanens', fecundada pelo espírito, tendo a capacidade de transformar a carne conferindo-lhe outra qualidade livre da ignorância. Depois o batismo será pelo fogo, em uma segunda fase da Obra.
        A albedo é a primeira fase na qual nos lavamos com a água limpa e verdadeira que nos livra das ignorâncias, das dúvidas sobre quem nós somos e o que devemos fazer, das obscuridades que nos levam aos erros, aos pecados, e às imperfeições. Na terapia, corresponde aos insights e esclarecimentos de si, à conscientização de tudo aquilo que está nas sombras. Nas vivências espirituais a albedo corresponde realmente às benditas iluminações e nova vida com que somos agraciados.
        O processo de albificação não se dá uma só vez na vida. Ele é cíclico. Inúmeras vezes recebemos do céu os ensinamentos divinos que buscamos. De água em água, de chuva em chuva, de orvalho em orvalho forma-se o rio. Aos poucos nos tornamos sábios e maduros, e todos os rios correm para o mar... Esses rios vão distribuindo no caminho água para todos que queiram dela beber. Bebem todos do espírito da cultura e da civilização acumulado. Há os homens e mulheres que, digamos assim, dão mais dessa água de beber pois dela têm em abundância, e são como nossos professores, orientadores e guias espirituais. Ou simplesmente são os nossos velhos antepassados, pais e mães, avôs e avós, contadores de histórias.
        Mas o que tal água mais especificamente é enquanto experiência? Qual sua qualidade alquímica? Além de poder penetrar no sólido, a água é fluida. Ela é um símbolo para algo que toma inúmeras formas com facilidade, e que tem a emoção viva que o ar puramente abstrato não possui.... como a música, como as imagens da literatura que emocionam, como o sonho acordado. Então chegamos a Saraswati para esclarecer melhor, por meio da amplificação, esse tipo de conhecimento que é a água permanente...
        Saraswati segura uma cítara em sua imagem, representando o conhecimento que nos traz a música, que se move de maneira fluida ao redor de nós como um casamento da água com o ar. Muitos mistérios divinos são transmitidos em ritos e religiões do mundo inteiro através da música, como espíritos sonoros que movem nossa alma, se animam e dançam em nosso coração no ritmo fluido de suas letras. Ela é a forma mais fecunda de conhecimento que pode existir, inundando de luz e de inspiração quem ouça essas canções. Claro que a matéria tem que estar preparada para receber a sabedoria, muitas mensagens simplesmente não são compreendidas a fundo.
        A música também pode ser inteiramente cindida do mundo do espírito, e não trazer conhecimento algum que valha a pena, somente obscuridades e mais induções ao erro. Mas as músicas rituais, as poéticas, as sagas, os hinos, os mantras hindus, enfim, toda espécie de música sacra ou que almeja amor, beleza e sabedoria elevados, é uma manifestação do tipo Saraswati; sabedoria divina descendo sobre a humanidade.
        O que encontramos muitas vezes nas músicas sacras são as histórias míticas de um povo, a história de seus espíritos mensageiros, de seus heróis civilizadores, de Deus, de sua Mãe eterna e suas inúmeras formas, dos deuses, dos casais divinos, do amor, de seus frutos etc... Temos então como identificar claramente outra manifestação dessa forma de conhecimento. A sabedoria divida é, além da música, todo o mundo da literatura, das imagens, e da arte pictórica, de todas as artes!
        O conhecimento de Saraswati nos traz a beleza do movimento vivo. Espírito aquífero que pouco a pouco se imprime na matéria do artista, do literato, e do poeta...
        Sarasvati senta-se em um cisne branco, um animal de poder que une dois reinos da natureza: os reinos da água e do ar, o que confirma a sua semelhança arquetípica com o elemento da alquimia de que estamos falando. A cor branca do cisne representa o conhecimento purificado pela albedo, a clareza mental de que esse conhecimento é divino e transcendente. Não sendo nosso, portanto, não deveríamos ter ciúme dele.
        Outro animal de Saraswati menos comum é o pavão. Com suas múltiplas cores ele representa o conhecimento da multiplicidade, mas também o conhecimento que vem através da beleza que nos encanta e seduz para ensinar algo importante. Não é curioso como muitas vezes antes da albedo os alquimistas vêem o surgimento de todas as cores, e chamam a isso de 'cauda do pavão'? O conhecimento da multiplicidade ainda é imperfeito quando não se captou totalmente a sua unidade e transcendência. No entanto, esse estado de conhecimento já anuncia a sua perfeição. Como Jung diz, podemos ficar inflacionados no contato com a sabedoria do Self e suas emoções intensas; ninguém nega a exuberância inflacionária do pavão. Essa dinâmica de imagens arquetípicas nos ensina que isso é inclusive o esperado.
        Com a albificação subsequente à cauda pavonis, temos a união de todas as cores no branco. Talvez seja por isso, por se tratar de um estado de encantamento preliminar a albedo, que dificilmente Saraswati tem como sua montaria o pavão, pois nessa fase a presença do ego ainda não permite a total compreensão de que a manifestação do conhecimento é um ato puro do criador, ou seja, ainda pode-se encontrar a vaidade e o ciúme do conhecedor, ao invés da profunda devoção que caracteriza o sábio.
        Caso queiramos ter acesso à sabedoria divina devemos mergulhar nesses rios caudalosos da humanidade, ler histórias míticas dos povos, como as da mitologia hindu que são riquíssimas, as histórias e mitos da bíblia, as parábolas alquímicas, a boa literatura, músicas e artes: são 'água da vida'. Não qualquer literatura, mas a de valor universal, que nos fala de quem nós somos realmente, a que contém sabedoria para beber e iluminar gerações, a que tem como destino certo chegar ao mar e se consagrar eterna.

A "Nova Era" como um retorno a "Eterna Era"

"Uma relação espiritualizada e anímica com a realidade material deve exercer sobre a nova geração uma atração toda especial, por ser capaz de curar a dissociação antinatural e secular da psique ocidental e, simultaneamente, de superar de dentro o materialismo".

        Esse grifo que acabei de citar é uma consideração que encontramos já no prefácio do livro de Jung chamado "Psicologia e Alquimia". Toda essa atração pelo mundo espiritual e anímico, que se constata já há muito tempo na mente coletiva de nossos jovens, tem sido nos tempos atuais abrangentemente rotulada como 'Nova Era'. Mas o que seria a Nova Era? Senão um sintoma, e também uma tentativa de cura de um tempo que foi fraturado pelos erros da filosofia materialista ocidental, especialmente os erros do iluminismo, modernismo, liberalismo e marxismo ou materialismo-histórico, que nasceram e se encadearam um ao outro no Ocidente europeu recentemente, mas que não deveriam ser confundidos com o vasto ocidente em si como tem sido feito. Hoje, tais erros se espalham como vírus também no oriente, destruindo ou ameaçando destruir a alma daquelas culturas.
        Lá no oriente, políticos, tiranos e intelectuais de gabinete, contaminados pelo materialismo que nasceu no continente europeu, tentam, mas não conseguem abolir a natureza do homem eterno, mesmo com o uso da força paramilitar e de forte doutrinação centralizada pelo Estado, caso que acontece na ditadura Chinesa, por exemplo. Poderíamos retornar e curar esse tempo fraturado através do espelhamento no oriente antigo? Essa foi uma pergunta que Jung levantou e tentou responder, já que em essência é possível encontrar naquelas paragens o caminho integral que o ocidente antigo trilhava antes de sua fratura, como na Índia onde ainda não existe a divisão entre mundo material e mundo metafísico. Sophia ainda está íntegra e acessível para todos.
        Tal forma de espelhamento no oriente poderia nos servir como ponto de comparação e apoio, mas... respondendo a pergunta que Jung nos colocou, o que podemos aprender com os maus frutos destes tempos atuais é que a recusa a curar a nós mesmos por vias diretas, além de não resolver a nossa cisão, tem feito mal a outros biomas culturais distantes, o chamado "oriente". E isso se dá a curtíssimo prazo, por meio da disseminação da dissociação materialista e neurotizante no mundo que avança com sua globalização selvagem. O islã também reage com cada vez mais fundamentalismo e poder bélico frente a ameaça ocidentalizante, como numa super reação e defesa, para a infelicidade deles próprios e nossa.
        Logo surgem os mitos populares irrefreáveis e ctônicos em vários pontos do globo, sobre a vinda de um Messias ou Avatar que nos reconduziria pelo caminho correto de nossa alma que foi extraviado. Isso não é nada mais que a lei da compensação psíquica aplicada a nível coletivo, a tentativa de cura do inconsciente da humanidade que está em profundo desequilíbrio. O que pode curar a alma ocidental, de fato e sem medeio, é a aceitação que advém de um retorno e reconhecimento das próprias raízes ocidentais, mesmo que encontremos o oriente no ocidente - e vice-versa - ao revirar nossas raízes. É somente olhando para dentro de si, e isso vale a nível cultural também, que podemos curar cisões, honrar antepassados. Cultivar e cuidar da Árvore da Vida que une terra e céu, olhar para os nossos pais e mães espirituais sem culpas, com a reconciliação que nos fará inteiros e fortes novamente. Integrar a religião e espiritualidade desvalorizada e reprimida ao conhecimento básico e superior, e principalmente à vida prática. 
        Os valores espirituais e a vivência do sagrado são fundamentais para a vida, coisas das quais o materialismo simplesmente tenta nos alijar. Além disso, nossos antepassados (e isso tem acontecido especialmente com toda essa multidão imensa de cristãos que existem, mas não só eles) não podem ser simplesmente abolidos por um ato de vontade ou por meio de uma escrita histórica vomitada, negativa ou excludente, e anticristã... pois tudo isso está gravado no fundo de nossa alma e não pode ser simplesmente apagado sem que a alma coletiva adoeça. Além do mais, o reprimido sempre retorna. Não tentaram aniquilar e extinguir os judeus e o judaísmo a pouco tempo? O que acontece com eles hoje? Pois é, o genocídio cultural e espiritual, que se avizinha do genocídio de fato, nunca irá vencer, pois o reprimido sempre retorna. A sociedade evolui e se transforma pela relação a amor, e não pela aniquilação e repressão espiritual de povos e seu espírito.
        A alma coletiva sofre com a falta de alimento espiritual que cura, e assim vai atrás da própria destruição. Sofre com o saudosismo que os jovens têm de algo que não viveram, mas que suas almas pressentem e buscam... mesmo que errando o alvo por falta de pistas, mirando em ETs, que mais parecem com a descrição de demônios que se tem na Idade Média e na religião hindu milenar, e outras desordens esquizoides e narcisistas que no fundo significam apenas desenraizamento da terra por total estranhamento de si. Nos tornaremos mais vazios, mais depressivos e mais desfigurados em nossa própria face sem a restauração do Antrophos. Faremos mal ao outro achando que estamos fazendo o bem, como tem acontecido no nosso contato com os povos orientais e outros povos.
        Cristãos, católicos, gnósticos, pagãos, índios, ou pagãos e índios cristianizados, de antes da fratura, formam uma multidão que vagueia no inconsciente coletivo esperando reconhecimento e integração. Embora seja óbvio, é bom lembrar que não existem quaisquer desses citados que tenham chegado sequer perto de serem materialistas em nosso passado. Eles olhavam pro sol, para a terra e para o seu clã, assim como todos os tipos de cristãos não contaminados pelo materialismo ou modernismo, e sentiam a totalidade de sua vida em união com o espírito. Isso é o normal no ser humano, e a vida era bem melhor. Sequer podemos imaginar como era essa vida, já que a história que o ser humano médio teve acesso na escola é contada justamente por pontos de vistas enviesados, extremamente cindido em vários aspectos; além de focar apenas os momentos de tensão na política, guerras e conflitos, esquecendo de todo o resto.
        A "Nova Era", por tanto, não é nada mais que uma tentativa neurótica, por parte do ser humano integral que existe em nós, de reconstrução da "Eterna Era" perdida. A neurose se dá, pois a tentativa de cura está acontecendo por meios enviesados, sem o chão e os tijolos de maior parte dos nossos antepassados. Em paralelo e alheio a tudo isso, o povo (o chão da pirâmide, fora da elite intelectual e política) interage e tenta construir a paz, a cultura e o religare diariamente, e são ignorados se não servem aos propósitos dessas filosofias, que buscam gerar conflitos no seio da sociedade, talvez justamente porque lhes falte a luz do espírito que iria interromper o processo autodestrutivo. Há uma tática nova realizada por eles que é a de usar religiões tradicionais para seus fins, porém, a releitura que é feita nesse resgate de religiões orais, por exemplo, é utilitarista. Veja-se o caso das religiões afros, que tem sido escritas pela primeira vez já com a fratura que contaminou o Ocidente, por meio do materialismo, ateísmo, utilitarismos políticos, que nada tem a ver epistemológica e espiritualmente com aquelas religiões tradicionais. Muita coisa está sendo adulterada. Resulta assim que esse "resgate" não é verdadeiro, mas já vem contaminado com a fratura e contaminação das filosofias neurotizantes que ameaçam o Oriente também. É a ironia das ironias, pois se fala muito atualmente contra a colonização do passado, mas na prática o que há é uma neocolonização, mais destrutiva em termos espirituais, pois como eram culturas orais, sem registro, os primeiros registros estão sendo feitos agora com o viés Ocidental pós-fratura, e inclusive, de origem europeia. Nada contra Europeus, mas de fato nem tudo que nasceu de filosofia por lá foi bom.
        A redescoberta de nossa alma pode ser auxiliada, mas não será realizada pelos povos que ainda não sucumbiram aos erros filosóficos do materialismo antirreligioso ou ante espírito dos novos colonizadores inconscientes, pois essa tarefa cabe a nós continuarmos de onde paramos. Mercurius nem pode fazer um tertium entre culturas tão diferentes, se falta a parte mais importante que é a que adviria de nós mesmos. É tentando fazer exatamente isso sem sabermos de nossa falta, que passamos nossa doença dessacralizante para os outros. Quantas coisas perdemos com o veneno materialista essa geração nem pode imaginar... quantas bonitas moradas, castelos e reinos encantados para gerações se abrigarem em sua sombra estão sendo impedidos de serem construídos neste exato momento? São milhares de anos de sabedoria sufocados e transfigurados em calúnias apenas. Revirando o monturo do passado muitos tesouros serão encontrados, mas principalmente se conseguirmos um acesso a eles por meios diretos, pelo restabelecimento de pontes com a nossa própria alma dita ocidental.
        A nuvem escura do materialismo se espalha do Ocidente ao Oriente, falta a luz do espírito, o que nos mostra que não existe caminho fácil, nem atalhos. Ao não nos curarmos nos tornamos impossíveis e hipócritas, não podemos amar o outro como nos ensina o Cristo, que por sinal nasceu no Oriente e fez sua trajetória até o Ocidente como o Sol sempre faz. O sol engolido pela noite, retorna no outro dia, e une os extremos do céu em sua trajetória há incontáveis eons, pois no fundo não existe diferença essencial entre o homem oriental e ocidental. Aliás, não existe diferença essencial no ser humano, somos em essência os mesmos. O Sol é a luz da consciência, a sabedoria do espírito. Ele pode parecer que morreu, mas é questão de tempo para ele renascer. O que estou dizendo é que é apenas uma questão de tempo para que o ser humano consiga se curar dessa fratura, pois a natureza sempre encontra o seu caminho.