"Uma relação espiritualizada e anímica com a realidade material deve exercer sobre a nova geração uma atração toda especial, por ser capaz de curar a dissociação antinatural e secular da psique ocidental e, simultaneamente, de superar de dentro o materialismo".
Esse grifo que acabei de citar é uma consideração que encontramos já no prefácio do livro de Jung chamado "Psicologia e Alquimia". Toda essa atração pelo mundo espiritual e anímico, que se constata já há muito tempo na mente coletiva de nossos jovens, tem sido nos tempos atuais abrangentemente rotulada como 'Nova Era'. Mas o que seria a Nova Era? Senão um sintoma, e também uma tentativa de cura de um tempo que foi fraturado pelos erros da filosofia materialista ocidental, especialmente os erros do iluminismo, modernismo, liberalismo e marxismo ou materialismo-histórico, que nasceram e se encadearam um ao outro no Ocidente europeu recentemente, mas que não deveriam ser confundidos com o vasto ocidente em si como tem sido feito. Hoje, tais erros se espalham como vírus também no oriente, destruindo ou ameaçando destruir a alma daquelas culturas.
Lá no oriente, políticos, tiranos e intelectuais de gabinete, contaminados pelo materialismo que nasceu no continente europeu, tentam, mas não conseguem abolir a natureza do homem eterno, mesmo com o uso da força paramilitar e de forte doutrinação centralizada pelo Estado, caso que acontece na ditadura Chinesa, por exemplo. Poderíamos retornar e curar esse tempo fraturado através do espelhamento no oriente antigo? Essa foi uma pergunta que Jung levantou e tentou responder, já que em essência é possível encontrar naquelas paragens o caminho integral que o ocidente antigo trilhava antes de sua fratura, como na Índia onde ainda não existe a divisão entre mundo material e mundo metafísico. Sophia ainda está íntegra e acessível para todos.
Tal forma de espelhamento no oriente poderia nos servir como ponto de comparação e apoio, mas... respondendo a pergunta que Jung nos colocou, o que podemos aprender com os maus frutos destes tempos atuais é que a recusa a curar a nós mesmos por vias diretas, além de não resolver a nossa cisão, tem feito mal a outros biomas culturais distantes, o chamado "oriente". E isso se dá a curtíssimo prazo, por meio da disseminação da dissociação materialista e neurotizante no mundo que avança com sua globalização selvagem. O islã também reage com cada vez mais fundamentalismo e poder bélico frente a ameaça ocidentalizante, como numa super reação e defesa, para a infelicidade deles próprios e nossa.
Logo surgem os mitos populares irrefreáveis e ctônicos em vários pontos do globo, sobre a vinda de um Messias ou Avatar que nos reconduziria pelo caminho correto de nossa alma que foi extraviado. Isso não é nada mais que a lei da compensação psíquica aplicada a nível coletivo, a tentativa de cura do inconsciente da humanidade que está em profundo desequilíbrio. O que pode curar a alma ocidental, de fato e sem medeio, é a aceitação que advém de um retorno e reconhecimento das próprias raízes ocidentais, mesmo que encontremos o oriente no ocidente - e vice-versa - ao revirar nossas raízes. É somente olhando para dentro de si, e isso vale a nível cultural também, que podemos curar cisões, honrar antepassados. Cultivar e cuidar da Árvore da Vida que une terra e céu, olhar para os nossos pais e mães espirituais sem culpas, com a reconciliação que nos fará inteiros e fortes novamente. Integrar a religião e espiritualidade desvalorizada e reprimida ao conhecimento básico e superior, e principalmente à vida prática.
Os valores espirituais e a vivência do sagrado são fundamentais para a vida, coisas das quais o materialismo simplesmente tenta nos alijar. Além disso, nossos antepassados (e isso tem acontecido especialmente com toda essa multidão imensa de cristãos que existem, mas não só eles) não podem ser simplesmente abolidos por um ato de vontade ou por meio de uma escrita histórica vomitada, negativa ou excludente, e anticristã... pois tudo isso está gravado no fundo de nossa alma e não pode ser simplesmente apagado sem que a alma coletiva adoeça. Além do mais, o reprimido sempre retorna. Não tentaram aniquilar e extinguir os judeus e o judaísmo a pouco tempo? O que acontece com eles hoje? Pois é, o genocídio cultural e espiritual, que se avizinha do genocídio de fato, nunca irá vencer, pois o reprimido sempre retorna. A sociedade evolui e se transforma pela relação a amor, e não pela aniquilação e repressão espiritual de povos e seu espírito.
A alma coletiva sofre com a falta de alimento espiritual que cura, e assim vai atrás da própria destruição. Sofre com o saudosismo que os jovens têm de algo que não viveram, mas que suas almas pressentem e buscam... mesmo que errando o alvo por falta de pistas, mirando em ETs, que mais parecem com a descrição de demônios que se tem na Idade Média e na religião hindu milenar, e outras desordens esquizoides e narcisistas que no fundo significam apenas desenraizamento da terra por total estranhamento de si. Nos tornaremos mais vazios, mais depressivos e mais desfigurados em nossa própria face sem a restauração do Antrophos. Faremos mal ao outro achando que estamos fazendo o bem, como tem acontecido no nosso contato com os povos orientais e outros povos.
Cristãos, católicos, gnósticos, pagãos, índios, ou pagãos e índios cristianizados, de antes da fratura, formam uma multidão que vagueia no inconsciente coletivo esperando reconhecimento e integração. Embora seja óbvio, é bom lembrar que não existem quaisquer desses citados que tenham chegado sequer perto de serem materialistas em nosso passado. Eles olhavam pro sol, para a terra e para o seu clã, assim como todos os tipos de cristãos não contaminados pelo materialismo ou modernismo, e sentiam a totalidade de sua vida em união com o espírito. Isso é o normal no ser humano, e a vida era bem melhor. Sequer podemos imaginar como era essa vida, já que a história que o ser humano médio teve acesso na escola é contada justamente por pontos de vistas enviesados, extremamente cindido em vários aspectos; além de focar apenas os momentos de tensão na política, guerras e conflitos, esquecendo de todo o resto.
A "Nova Era", por tanto, não é nada mais que uma tentativa neurótica, por parte do ser humano integral que existe em nós, de reconstrução da "Eterna Era" perdida. A neurose se dá, pois a tentativa de cura está acontecendo por meios enviesados, sem o chão e os tijolos de maior parte dos nossos antepassados. Em paralelo e alheio a tudo isso, o povo (o chão da pirâmide, fora da elite intelectual e política) interage e tenta construir a paz, a cultura e o religare diariamente, e são ignorados se não servem aos propósitos dessas filosofias, que buscam gerar conflitos no seio da sociedade, talvez justamente porque lhes falte a luz do espírito que iria interromper o processo autodestrutivo. Há uma tática nova realizada por eles que é a de usar religiões tradicionais para seus fins, porém, a releitura que é feita nesse resgate de religiões orais, por exemplo, é utilitarista. Veja-se o caso das religiões afros, que tem sido escritas pela primeira vez já com a fratura que contaminou o Ocidente, por meio do materialismo, ateísmo, utilitarismos políticos, que nada tem a ver epistemológica e espiritualmente com aquelas religiões tradicionais. Muita coisa está sendo adulterada. Resulta assim que esse "resgate" não é verdadeiro, mas já vem contaminado com a fratura e contaminação das filosofias neurotizantes que ameaçam o Oriente também. É a ironia das ironias, pois se fala muito atualmente contra a colonização do passado, mas na prática o que há é uma neocolonização, mais destrutiva em termos espirituais, pois como eram culturas orais, sem registro, os primeiros registros estão sendo feitos agora com o viés Ocidental pós-fratura, e inclusive, de origem europeia. Nada contra Europeus, mas de fato nem tudo que nasceu de filosofia por lá foi bom.
A redescoberta de nossa alma pode ser auxiliada, mas não será realizada pelos povos que ainda não sucumbiram aos erros filosóficos do materialismo antirreligioso ou ante espírito dos novos colonizadores inconscientes, pois essa tarefa cabe a nós continuarmos de onde paramos. Mercurius nem pode fazer um tertium entre culturas tão diferentes, se falta a parte mais importante que é a que adviria de nós mesmos. É tentando fazer exatamente isso sem sabermos de nossa falta, que passamos nossa doença dessacralizante para os outros. Quantas coisas perdemos com o veneno materialista essa geração nem pode imaginar... quantas bonitas moradas, castelos e reinos encantados para gerações se abrigarem em sua sombra estão sendo impedidos de serem construídos neste exato momento? São milhares de anos de sabedoria sufocados e transfigurados em calúnias apenas. Revirando o monturo do passado muitos tesouros serão encontrados, mas principalmente se conseguirmos um acesso a eles por meios diretos, pelo restabelecimento de pontes com a nossa própria alma dita ocidental.
A nuvem escura do materialismo se espalha do Ocidente ao Oriente, falta a luz do espírito, o que nos mostra que não existe caminho fácil, nem atalhos. Ao não nos curarmos nos tornamos impossíveis e hipócritas, não podemos amar o outro como nos ensina o Cristo, que por sinal nasceu no Oriente e fez sua trajetória até o Ocidente como o Sol sempre faz. O sol engolido pela noite, retorna no outro dia, e une os extremos do céu em sua trajetória há incontáveis eons, pois no fundo não existe diferença essencial entre o homem oriental e ocidental. Aliás, não existe diferença essencial no ser humano, somos em essência os mesmos. O Sol é a luz da consciência, a sabedoria do espírito. Ele pode parecer que morreu, mas é questão de tempo para ele renascer. O que estou dizendo é que é apenas uma questão de tempo para que o ser humano consiga se curar dessa fratura, pois a natureza sempre encontra o seu caminho.

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